Ele me vê.
Não como os outros —
mas como a fera reconhece o espelho.
Seus olhos me despem em silêncio,
cirurgicamente.
Não há toque, mas sangro.
Caminhamos lado a lado
em corredores onde a ética apodrece,
e a moral é apenas mais um bisturi
na mesa de dissecação.
Ele fala com beleza,
como se a morte fosse um idioma raro
e eu… seu único tradutor.
Sinto-o dentro da minha cabeça,
como uma febre que pensa,
como uma fome que fala.
E o pior —
não é o medo que me toma.
É o desejo.
Desejo de entender.
Desejo de ceder.
De ver o mundo como ele vê:
um jardim de horrores,
regado com intenções.
Somos dois — ou talvez um só.
Eu caço monstros…
mas quando olho no espelho,
vejo seu sorriso no meu reflexo.

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