O cheiro foi a primeira coisa que atingiu Lívia Santoro. Não o odor comum da morte — não era apenas carne em decomposição, era algo mais primitivo. Denso. Como se o ar fosse feito de sangue envelhecido e ossos moídos. Ela apertou o lenço contra o rosto e avançou entre os arbustos da reserva florestal interditada, guiada apenas por uma lanterna e seu instinto jornalístico.
Não era a primeira vez que cobria um assassinato. Mas havia algo de errado naquele caso desde o início.
O corpo havia sido encontrado pendurado a sete metros de altura, preso entre os galhos de uma figueira antiga, despido e virado do avesso. A pele, esticada e costurada como uma bandeira, tremulava com o vento. As vísceras estavam organizadas em padrões circulares no solo.
Não havia sangue. Só silêncio.
Lívia anotou os detalhes em seu bloco — ela sempre escrevia à mão, mesmo na era dos tablets. Era o peso da palavra escrita que a fazia continuar. E aquela cena, absurda, precisava ser documentada com precisão. A polícia tentou calar. A perícia não se pronunciava. O delegado usava termos como “vandalismo ritualístico”, mas nem ele acreditava nisso.
Foi uma frase no relatório que a perseguiu desde o primeiro dia: “Marcas indicam que a vítima pode ter permanecido consciente durante o procedimento.”
Três dias depois, outro corpo. E depois mais um. Cada um mais macabro que o anterior. Línguas costuradas no lugar dos olhos. Dentes enfileirados como teclas de máquina de escrever sobre pedras.
Marcas na terra – não pegadas. Arranhões simétricos, como se algo com garras, mas dotado de inteligência, tivesse desenhado algo.
A palavra VEJO apareceu repetida em diversos pontos. Em árvores, na carne das vítimas, nas paredes de concreto de uma construção abandonada. Não grafada – cravada.
Lívia iniciou a investigação por conta própria, com câmera, gravador e um medo crescente. As evidências levavam à antiga usina de purificação da cidade, fechada após um incêndio misterioso em 1994.
Lá, encontrou os arquivos que ninguém mencionava: registros de desaparecimentos de funcionários, todos os boletins internos arquivados com o carimbo Confidencial. Havia relatos de “sons vindos dos dutos” e “coisas rastejando pelas paredes”. Um dos documentos continha uma frase escrita com sangue seco:
“Ele nasceu da fome das palavras. E agora nos escreve de volta.”
Na noite do dia 21 de fevereiro, Lívia fez sua última entrada no diário de campo:
“Estou indo até a zona cega da floresta. O sinal morre lá, mas deixarei registros em fita. Encontrei uma trilha de ossos — literalmente. Pedaços pequenos, humanos, organizados como se fossem frases em uma língua que não compreendo. Acho que ele fala. E acho que quer ser compreendido.”
“Se eu não voltar… não deixem que apaguem isso.”
Ela entrou na floresta às 23h04. O sinal foi perdido às 23h12.
O que restou foi o áudio encontrado em seu gravador, deixado misteriosamente na recepção do jornal dois dias depois, embrulhado em um pano de carne costurada.
No áudio, sua respiração está irregular. Há estalos, como carne viva se esticando. Sons úmidos. E então, sua voz, quase um sussurro:
“Ele me observava o tempo todo. Ele entende o que somos. Ele nos lê. E agora, ele escreve com a gente.”
“Ele pensa. Ele aprende. Ele está me escrevendo agora.”
“[gargalhada distorcida] E eu sou só mais uma letra…”
Depois, só silêncio. Longo. Vivo.
Nenhum corpo foi encontrado. Nenhum sinal de luta.
Somente um recado, entalhado na porta da redação, com garras afiadas e simetria assustadora:
“ELA ESCREVEU SOBRE MIM. AGORA, EU ESCREVO COM ELA.”
Fim.
Ou, como ela escreveria… início.

Deixe um comentário