Forjamos saber com sangue.
Prata, tinta, ossos.
Cada palavra traduzida
matava uma outra — em silêncio.
Babel brilhava como um farol,
mas o brilho era febre,
não luz.
Os livros sussurravam verdades
que só serviam àqueles
com os pés fincados em terra roubada.
Fomos escolhidos.
Mas não para entender —
para servir.
Nas torres, aprendemos a trair
com frases elegantes.
A roubar o mundo
com um léxico encantado.
Chamavam de ciência.
Mas era feitiçaria imperial,
escrita à custa de línguas extintas
e nomes apagados como poeira.
Fomos cúmplices.
Fomos mártires.
Fomos… necessários?
As chaves que giramos nos portões da mudança
também trancaram nossas próprias prisões.
E agora Babel ruge.
Mas não em glória.
Em queda. Como toda torre feita de orgulho
e mentiras bem traduzidas.

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