O Deus Esquecido

No ventre escuro da mata esquecida,
onde o silêncio respira temor,
ergue-se a forma que nunca é bem-vinda,
nascida da terra, da dor e do horror.

Tem chifres de galho, olhos de abismo,
passos que o chão não ousa negar.
É sombra vestida de antigo batismo,
o eco que veio pra reclamar.

A vila cochicha com voz contida,
reza a um céu que nunca responde.
Mas ele escuta — a prece perdida
que brota do sangue e se esconde.

Os homens o chamam de praga e veneno,
acusam com fogo, com cruz e com fé.
Mas nunca se olham no espelho pequeno
que guarda o mal de onde ele é.

Na escuridão, uma alma se parte,
e o medo se curva ao que não se vê.
Pois há mais verdade na morte que arde
do que em mil promessas de não ser quem é.

Ele não fala — mas tudo entende,
pois fala o idioma da raiz que apodrece,
do osso quebrado, da carne que rende,
da alma queimada que nunca esquece.E dança.
Dança com a noite, com os vermes, com o lodo,
pois sabe que o mundo não teme o demônio,
teme o retorno de um deus sem decoro,
que vem da floresta… pra cobrar o que é todo.


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