O Banquete de Amora

Ela surgiu numa terça-feira úmida, dessas em que o ar parece suado, prenhe de alguma febre invisível. Vestia um tecido que grudava no corpo como carne viva — um vermelho de miolo exposto, nada parecido com os vermelhos alegres dos comerciais. O nome que me deu foi Amora. E ela tinha gosto de fruta fermentada, de coisa esquecida no fundo do bosque, onde a podridão vira perfume.

Nos conhecemos na porta de um açougue fechado. Eu carregava músculo bovino em sacola de plástico; ela só carregava fome. Olhou pra mim como quem lê o cardápio de trás pra frente — das entranhas à casca. Disse que adorava carne humana. Eu ri. Pensei que fosse humor alternativo. Era preâmbulo.

Amora me amou com os dentes antes de me tocar com as mãos. Me beijava como quem rasga envelope com a boca, ansiosa por alguma mensagem secreta escondida sob a pele. Dizia que “amor de verdade se digere”, e que o único jeito de me ter era me consumir — parte por parte, em longos rituais de mesa posta e luxúria transbordada.

Ela me tratava como prato principal, mas com ternura de chef. Sabia os meus cortes mais nobres: a maciez do pescoço, o ponto exato entre a clavícula e a saudade. Passava azeite nos meus ombros, enfeitava meu corpo com alecrim, e recitava orações feitas de saliva.

No início, eram só mordidas. Mimos. Dentadas que ficavam entre o prazer e o hematoma. Mas logo ela começou a colher pedaços. Um naco de coxa aqui. Um fragmento de língua durante um beijo mais faminto. Eu deixava. Não por submissão — mas por um desejo sagrado de ser albergada dentro dela. Ser digerida era, para mim, a forma mais pura de permanência.

Nosso quarto era meio altar, meio frigorífico. Velas pretas pingando cera espessa. O lençol manchado como tábua de corte. O cheiro? Uma mistura entre incenso e sangue morno — familiar, quase acolhedor. O amor ali não era metáfora: era faca. E cada “eu te amo” vinha seguido de uma incisão.

Na última noite, ela chorou. Gotas salgadas misturadas ao molho que preparava. Sussurrou que eu era o último banquete — o final perfeito para o jejum que ela havia sido antes de mim. Me despiu com a reverência de quem desembrulha oferenda. Ajoelhou-se. Me abriu.

Senti a língua dela passear por dentro como quem conhece a casa pela primeira vez, encantada com cada cômodo. Quando segurou meu coração com as mãos — quentinho, pulsando, obediente —, eu sorri. Não por coragem. Por entrega.

E ali, entre garfadas de mim e goles do meu sangue quente, entendi tudo:

Amora não me queria morta.

Me queria eterna.

Hoje, se cruzarem com ela por aí, prestem atenção:

Ela anda com um brilho no olhar que não é dela.

Talvez percebam um certo jeito meu de morder o mundo, um sorriso que nunca foi só dela.


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