Cresci no castelo de um rei sem espelho,
Que usava meus olhos pra ver seu brilho.
Suas palavras eram coroas de espinho,
E o amor, um cetro que pesava sozinho.
Na mesa, só havia um prato cheio —
O dele.
E eu, faminta de afeto,
Aprendi a viver de migalhas de ego.
Ele pintava o céu com seu próprio nome,
E chamava de tempestade qualquer sombra que não fosse sua.
Se eu chorava?
Dizia que o chão era fraco demais pra sustentar meus passos.
Fui jardim sem sol,
Regado a exigência,
Podado sempre que florescia fora do molde.
Meu riso era silêncio sob o rugido da sala,
Minha alegria: uma vela que ele apagava com sopro de raiva.
Nunca fui criança —
Fui moldura dourada para um retrato que não era meu.
Mas um dia, o vento me contou
Que há florestas fora dos muros.
Que o mundo não gira só num trono.
Que o eco do meu nome também merece espaço.
Ainda não parti.
Meus pés conhecem os portões, mas não o caminho.
A chave ainda não é minha.
Mas guardo no peito o mapa da fuga,
E um grão de coragem, escondido na palma.
Ainda danço no salão que ele vigia,
Com passos miúdos e olhos abertos.
Mas mesmo cercada de espelhos que distorcem,
Eu sei: existe algo em mim que não pertence a ele.
E isso…
Ele nunca poderá apagar.

Deixe um comentário