Nas falésias enevoadas da vila de Brannoch, o vento carregava um lamento antigo, quase como uma canção esquecida do mar. Marisa caminhava descalça pela areia fria, sentindo o corpo enfraquecer a cada passo, o peso da doença roubando-lhe a vida como uma maré lenta e implacável. Ainda assim, havia em seu olhar uma luz tênue, uma esperança frágil que se agarrava ao infinito das ondas.
Numa noite em que a lua parecia um espelho prateado sobre o mar, Evora emergiu das águas, sua pele translúcida brilhando sob a luz suave, seus olhos profundos como abismos. Ela sentiu, com uma dor aguda no peito, a tristeza de Marisa, uma alma que lutava contra o inevitável. Sem hesitar, Evora se aproximou, e quando seus olhares se encontraram, algo indescritível nasceu — um amor intenso, urgente e proibido, tão frágil quanto a vida que se esvaía entre os dedos de Marisa.
Evora deixou sua pele de foca cair, aceitando o preço de abandonar o mar para estar ao lado de quem amava. Cada toque era um sussurro de eternidade, cada sorriso um desafio ao tempo cruel que os separava. Sob o céu carregado de estrelas, entre tempestades e silêncios, elas viveram um amor que queimava mais forte do que a dor e o medo. Marisa segurava a mão de Evora como se fosse a única âncora em um mundo que desmoronava.
Mas o destino é implacável. A doença continuava sua dança sombria, roubando as cores do rosto de Marisa, apagando lentamente sua presença. Evora sentia seu coração despedaçar a cada fraquejo da amada, a cada respiração que se tornava mais difícil, como se o próprio mar lhe arranhasse a alma.
Desesperada, Evora mergulhou nas profundezas abissais, enfrentando monstros antigos, correntes traiçoeiras e o silêncio mortal do oceano. Buscou entre segredos ancestrais uma cura, um milagre que pudesse estender os poucos momentos que ainda restavam. Mas o mar, vasto e poderoso, não podia dobrar as leis do tempo, nem desfazer o fio trágico do destino.
Quando Evora retornou, trazendo um relicário feito das conchas negras e lágrimas salgadas do oceano, encontrou Marisa quase sem forças, os olhos semiabertos, como se já caminhando para um sonho eterno. Com a voz embargada, Evora sussurrou: “Eu tentei tudo, mas nem mesmo o mar pode vencer o que te consome”.
Marisa, com um sorriso triste e a mão fraca acariciando o rosto da selkie, respondeu: “Nosso amor é mais forte que a morte. Nem a escuridão que me leva pode apagar o que vivi contigo. Quando eu me for, lembrarei de você no som das ondas, no beijo do vento, no silêncio da noite”.
Naquela última noite, sob uma lua vermelha que parecia chorar sangue, Evora segurou Marisa no colo, sentindo cada segundo fugir como a maré que se retira da praia. As lágrimas de Evora misturavam-se ao sal do mar enquanto ela sussurrava palavras de amor e despedida. “Eu te amo” repetia, como uma prece desesperada — “não importa onde você vá, meu coração será seu abrigo eterno”.
Marisa fechou os olhos pela última vez, deixando escapar um último suspiro, quase um pedido: “Leve meu amor para o mar… deixe que ele nos proteja onde a terra não pode”.
Quando a aurora rompeu o céu, o corpo de Marisa, sereno, estava envolto pelas algas negras, como um último abraço do oceano. Evora mergulhou nas profundezas, sua dor imensa como as sombras abissais, sabendo que perdera a única vida que queria salvar.
O amor delas agora vivia nas ondas, uma maré eterna de saudade, um sussurro triste no vento que nunca cessaria.

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