A flor no inverno

Na casa dos ecos e portas fechadas,
o trovão desceu mais cedo que o céu.
Não foi raio de chuva nem vento nas telhas,
foi o tempo mudando por dentro do véu.

O velho carvalho, de tronco pesado,
costumava ranger, resmungar, estremecer.
Mas naquele dia, em vez de trovões,
veio o galho curvado, disposto a ceder.

A menina — folha mais alta do ramo,
já conhecia o rugido do inverno,
o estalo das janelas, a dor nos silêncios,
o frio que se esconde no fundo do terno.

Mas quando o galho partiu sem aviso,
o ar ficou denso, o mundo girou.
Foi a primeira vez que a terra rachou
bem debaixo da flor que não desabrochou.

Ela calou como quem guarda segredo,
como quem aprende a sorrir com cuidado.
Sabia que às vezes o céu mais azul
também esconde um trovão disfarçado.

E na sala onde o tempo desfez os retratos,
ela cresceu, um pouco mais curva, um pouco mais só.
Não se quebra só quando o galho estala.
Às vezes, é o som que vem depois que se faz o nó.


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