Heranças que assombram, amores que libertam

Um romance gótico queer onde o passado sussurra, o luto pulsa e o amor se recusa a morrer

The Haunting of William Thorn é uma daquelas histórias que não apenas arrepiam, mas permanecem. Como uma bruma antiga que se infiltra pelas frestas da memória, o livro de Ben Alderson nos envolve em uma atmosfera gótica pulsante, onde luto e desejo, assombração e ternura coexistem. Com sua já característica sensibilidade queer, Alderson entrega um romance que é ao mesmo tempo sombrio e profundamente humano, um convite ao confronto com os fantasmas do passado, sejam eles literais ou emocionais.

Tive o privilégio de ler este livro antecipadamente por meio de um E-ARC, e desde as primeiras páginas senti que estava diante de algo especial, um romance que não apenas entretém, mas que ressoa. A premissa, que mistura elementos de How to Sell a Haunted House e The Haunting of Hill House, nos apresenta a William, um homem devastado pela traição do namorado Archie e ainda mais pela morte repentina dele logo em seguida.

Esse ponto de partida, sombrio e visceral, não é apenas um recurso narrativo, mas o alicerce emocional de toda a história. Quando William herda, inesperadamente, uma mansão decadente em uma vila inglesa aparentemente congelada no tempo, Alderson constrói um cenário gótico de tirar o fôlego,  com passagens secretas, sussurros noturnos e uma presença espiritual que não quer apenas assombrar: quer ser ouvida.

A grande força do livro está em seu duplo movimento temporal. Enquanto acompanhamos William nos dias atuais lidando com o luto, a culpa e a crescente tensão com os moradores de Stonewall, somos levados também ao passado, aos anos 1920, para conhecer a comovente história de amor proibido entre dois homens, uma história que não apenas explica a origem da assombração, mas que espelha o próprio processo de cura de William.

Alderson constrói personagens emocionalmente complexos: William é um protagonista falho, amargurado, mas extremamente humano. Edward, o misterioso aliado local, guarda segredos que desafiam as convenções da vila e talvez até do tempo. E o espírito que habita o casarão é tão trágico quanto ameaçador, forçando o leitor a questionar: o que, afinal, é um fantasma, senão uma dor que se recusa a ser esquecida?

Com uma prosa envolvente e capítulos curtos que alternam entre presente e passado, o autor sustenta uma tensão constante, digna dos melhores romances góticos. Mas há também beleza na arquitetura da linguagem, nos lampejos de esperança e, principalmente, na ideia de que o amor, mesmo quando reprimido, pode ecoar por gerações.The Haunting of William Thorn é mais do que uma história de fantasmas: é um tratado sensível sobre perda, reconciliação e a força do amor queer em atravessar até mesmo a morte. Para fãs de casas mal-assombradas, segredos enterrados e representatividade emocionalmente honesta, esta leitura é imperdível.


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