Mama diz que família é isso:
mãos que deixam marcas
e dizem que é carinho,
“prova de que ainda nos amamos”,
como ouvi na mesa, entre migalhas de torta
e olhos que me vigiavam como iscas prontas
Eu cresci aprendendo
que o prato limpo vale mais que a pele limpa,
e que nada aquece a casa
como o cheiro de algo sendo assado,
fosse coelho, fosse kit,
fosse a culpa de alguém que devia saber melhor
Eden contava histórias
de mulheres escondidas em tocas,
fazendo farinha de ossos
e servindo a seus semelhantes
tortas feitas da própria família
Eu ouvia em silêncio,
sabendo que algumas histórias
cheiram forte demais para ser só ficção.
Mama sorria.
O sorriso dela sempre foi um pedido,
uma posse,
um tipo de fome.
Ela olhava para mim
como quem decide qual parte cozinha primeiro,
qual parte dói mais ao arrancar.
Mas chamava isso de proteção.
Chamava de amor.
Eu era pequena,
mas já sabia:
a gente aqui aprende cedo
que amar é dar-se como carne.
É deixar que alguém nos moa aos poucos
até virar pó macio,
como a mulher-coelho fazia com seus mortos.
E quando Mama dizia meu nome,
quando dizia Margot naquela voz mansa
que escorria como mel venenoso,
uma parte de mim entendia
que eu também era ingrediente.
Eu, que ajudei a caçar os kits no escuro,
que vi unhas roxas nos dedos de alguém
que nunca saiu de nossa casa,
eu, que aprendi que entrar aqui
é nunca mais sair inteira.
Mama me amava.
De um jeito que devorava.
De um jeito que fazia da minha vida
uma refeição longa.
E eu a amava de volta,
porque amar é o único modo
de sobreviver sendo comida.
No fim, percebi:
ela nunca quis me matar.
Apenas me mastigar
o suficiente para que eu ficasse
para sempre presa entre os dentes dela.
Porque, nesta casa,
o amor não se diz.
O amor se come.

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