Virginia escreve com mãos de neblina,
Vita caminha com passos de hera antiga,
duas mulheres num tempo que não as queria,
mas a palavra queria.
Amaram-se em cartas longas como mares,
em tardes roubadas à moral do mundo,
em beijos que o papel guardou melhor que a carne,
pois o papel não acusa.
Então Virginia, que amava transformações,
fez do amor um artifício de eternidade:
mudou o sexo, mudou o nome,
para não perder Vita ao tempo.
Chamou-a Orlando,
homem por fora, mulher por dentro,
século após século intacta,
como o desejo que não envelhece.
Orlando atravessa eras
como Vita atravessava Virginia:
com insolência, beleza e liberdade,
rindo das fronteiras impostas.
E assim o amor sáfico sobreviveu
disfarçado de romance fantástico,
porque às vezes, para dizer a verdade,
é preciso inventar um mundo.
Virginia sabia:
amar uma mulher era já um ato literário,
mas escrever esse amor
foi torná-lo imortal.

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