Em The Book of Blood and Roses, desejo sáfico, poder e monstros se entrelaçam em uma fantasia sombria que questiona quem realmente merece ser temido
Ler The Book of Blood and Roses foi como reconhecer um desejo antigo que eu não sabia nomear até ele me encarar de volta, com olhos escuros, sangue nos lábios e nenhuma intenção de pedir desculpas. Annie Summerlee escreve um romance que é, ao mesmo tempo, fantasia sombria, crítica política e uma carta de amor às mulheres que desejam outras mulheres mesmo quando o mundo insiste em tratá-las como perigo.
Rebecca Charity é uma protagonista afiada como a lâmina que carrega no pulso. Caçadora de vampiros, treinada para odiar, sobreviver e matar, ela entra em Tynahine carregando luto, raiva e uma identidade forjada pela violência. Mas o livro é inteligente demais para se contentar com a fantasia simples do inimigo a ser destruído. O que Summerlee faz, e faz com elegância cruel, é desmontar a lógica binária entre monstro e humano, opressor e vítima, especialmente quando o desejo entra em cena.
E entra.
Como mulher sáfica, é impossível não sentir o impacto da maneira como o romance trata o olhar, o corpo e a atração entre mulheres. Não há pressa nem fetichização barata. Há tensão. Há perigo. Há reconhecimento. O desejo aqui não funciona como alívio narrativo. Ele é um conflito ético. Amar outra mulher, sobretudo quando essa mulher é tudo o que você foi treinada para odiar, não aparece como redenção fácil, mas como uma fratura profunda na identidade da protagonista. E isso é profundamente honesto.
O livro também brilha ao usar o vampirismo como metáfora política sem subestimar o leitor. As estruturas de poder, os tratados, a falsa promessa de integração e o discurso civilizado que esconde violência ecoam sistemas muito reais. Ainda assim, Summerlee nunca perde o foco no íntimo, nos silêncios, nos olhares sustentados por tempo demais, na escolha entre obedecer e desejar.
A linguagem é elegante sem ser excessiva, sombria sem ser opaca. Há uma sensualidade constante no texto, mas ela nasce da atmosfera, não da exposição. Do toque evitado. Da respiração contida. Do perigo de querer.
The Book of Blood and Roses é um livro sobre sangue, sim, mas também sobre memória, legado e a coragem necessária para amar fora das narrativas que nos foram impostas. Como leitora sáfica, terminei a leitura com a sensação rara de ter sido vista, não como exceção, não como símbolo, mas como alguém para quem o amor entre mulheres pode ser épico, moralmente complexo e central à história.
É um livro que morde.
E eu agradeci por cada marca.

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