A violência institucional contra mulheres em Women of a Promiscuous Nature

Um romance histórico que transforma arquivos de opressão em narrativa viva e revela como o Estado, a medicina e a moral pública se uniram para controlar o destino feminino

Há livros que contam uma história e há livros que desenterram um sistema inteiro. Women of a Promiscuous Nature, de Donna Everhart, pertence à segunda categoria. É um romance que opera como escavação histórica e emocional, retirando da terra seca dos relatórios oficiais, das leis sanitárias e das instituições de reforma moral as vozes femininas que foram soterradas por décadas. A leitura provoca a sensação de folhear um prontuário antigo e descobrir que cada anotação burocrática escondia um corpo com medo, uma juventude interrompida, uma vida desviada à força.

A obra se sustenta sobre fundamentos históricos rigorosos e inquietantes, especialmente o chamado American Plan, as políticas de higiene social do início do século XX e o Chamberlain-Kahn Act de 1918, que autorizava medidas de detenção, isolamento e internação de civis sob o pretexto de proteger as forças armadas das doenças venéreas. A partir dessas bases, o romance revela como programas estatais de “proteção” se transformaram em mecanismos de vigilância e punição direcionados sobretudo a mulheres pobres, jovens e consideradas moralmente suspeitas. O contexto não é decorativo, ele estrutura o conflito, molda as instituições retratadas e determina o destino das personagens.

A narrativa alterna pontos de vista femininos que se cruzam dentro desse aparato disciplinar que mistura prisão, hospital e catecismo moral. Não existe apenas uma vítima exemplar. Há a adolescente vulnerável, a mulher independente vista como ameaça pública, a jovem considerada promíscua sem prova alguma, a filha de lares desfeitos, a trabalhadora solitária. O critério de acusação é flexível e quase sempre baseado em reputação, boato ou conveniência administrativa. O romance demonstra com precisão dolorosa que bastava ser mulher fora do padrão para se tornar caso clínico ou problema social.

Como leitora, é impossível não perceber o peso simbólico da linguagem institucional apresentada na obra. Termos como restaurar, reformar, corrigir, treinar e recuperar aparecem revestidos de boa intenção, mas funcionam como verniz para práticas de coerção, exames forçados, internações sem julgamento, trabalhos compulsórios e intervenções médicas irreversíveis. A violência raramente se apresenta com gritos, muitas vezes chega assinada, carimbada e arquivada. O Estado fala em cuidado enquanto restringe liberdade, a medicina fala em tratamento enquanto disciplina comportamento, a moral pública fala em proteção enquanto escolhe alvos.

Um dos aspectos mais sofisticados do livro é a construção da autoridade feminina dentro do próprio sistema. A figura da superintendente não é desenhada como vilã simples, mas como produto ideológico de seu tempo, convencida de que disciplina é salvação e controle é caridade. Essa complexidade torna o romance ainda mais perturbador, porque revela que a engrenagem opressiva também se mantém por convicção, não apenas por crueldade. O poder que oprime nem sempre se reconhece como tal, e essa é talvez a sua forma mais eficiente.

Os elementos históricos aparecem incorporados à experiência concreta das personagens. O medo das doenças venéreas entre soldados, o uso de autoridades locais para capturar mulheres suspeitas, os testes médicos compulsórios, as colônias industriais femininas, a interseção entre eugenia, religião e política pública, tudo isso surge não como aula, mas como vivência. A História é sentida na pele das personagens, nos corredores institucionais, nos formulários preenchidos, nas regras diárias decoradas à força.

A escrita de Everhart é firme e limpa, mas permite momentos de lirismo contido, quase áspero, uma poética da sobrevivência. Não há sentimentalismo fácil nem redenções simplificadas. A resiliência não é romantizada. Algumas mulheres resistem, outras se adaptam, outras se quebram silenciosamente. O romance entende que a violência institucional não produz heroínas inevitáveis, produz marcas profundas e destinos desviados.

Como ficção histórica, o livro cumpre uma função essencial, devolve rosto e respiração a estatísticas esquecidas. Transforma legislação em drama humano e arquivos em memória viva. Também ecoa no presente ao mostrar como o controle do corpo feminino frequentemente se disfarça de proteção social. A obra sugere que a linha entre cuidado e coerção sempre depende de quem detém o poder de definir o que é desvio.

Women of a Promiscuous Nature é uma leitura densa, incômoda e necessária. Não busca conforto, busca verdade emocional e histórica. Alguns livros entretêm, outros confrontam. Este faz as duas coisas, mas permanece principalmente como acusação literária contra um sistema que confundiu moralidade com justiça e vigilância com virtude.


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