A fronteira entre instinto e humanidade

Em uma fantasia sombria de violência simbólica e tensão moral, M. Jane Worma transforma o monstruoso em espelho social e íntimo

Em Of Beasts, M. Jane Worma constrói uma fantasia sombria que não utiliza o monstruoso apenas como elemento de perigo, mas como instrumento de investigação ética. O romance se apoia na ideia de que a linha entre humano e fera não é biológica, mas comportamental, e que poder, medo e pertencimento são forças mais transformadoras do que qualquer maldição literal. O resultado é uma narrativa densa, atmosférica e moralmente inquieta.

A trama se desenvolve em um mundo onde a noção de “besta” é tanto categoria quanto acusação. A autora trabalha o conflito central como disputa de definição. Quem nomeia o monstro controla a narrativa. Esse deslocamento é um dos méritos mais fortes do livro, porque retira o foco da criatura e o coloca na estrutura que a descreve, persegue e utiliza. O horror, assim, não nasce apenas da presença do diferente, mas do sistema que precisa classificá lo para sobreviver.

Os personagens são escritos com ambiguidade consistente. Não há pureza heroica estável, nem maldade absoluta confortável. As motivações surgem entrelaçadas com trauma, desejo de proteção, ressentimento e sobrevivência. Worma demonstra habilidade particular ao construir protagonistas que erram de forma compreensível e antagonistas que não dependem de caricatura. Essa zona cinzenta sustenta a tensão narrativa e impede leituras simplistas.

O uso da fisicalidade é marcante. Corpo, transformação, ferida e marca são recorrentes como linguagem simbólica. O corpo não é apenas veículo de ação, mas território de conflito identitário. Mudança corporal e impulso instintivo funcionam como metáforas de exclusão, vergonha e autonomia. A fantasia, nesse sentido, opera como tradução visceral de conflitos sociais e psicológicos.

O estilo privilegia atmosfera sobre velocidade. As descrições são carregadas de textura, sombra e sensação tátil, criando uma imersão contínua. Em certos trechos, essa densidade imagética desacelera o ritmo mais do que o necessário, mas também amplia a experiência sensorial do leitor. O livro prefere inquietar a entreter, e essa escolha estética é coerente com sua proposta.

Como fragilidade, alguns arcos de tensão se prolongam sem variação suficiente de registro emocional, o que pode gerar sensação de repetição de intensidade. Certos confrontos ganhariam mais impacto com contrastes mais claros entre silêncio e explosão. Ainda assim, a coerência tonal mantém a unidade da obra.

No conjunto, Of Beasts é um romance sobre rotulação, medo e a violência de transformar diferença em ameaça. A autora sugere que o verdadeiro perigo não está na existência das feras, mas na necessidade humana de criá las. É uma fantasia que usa dentes e sangue para falar de linguagem, poder e pertencimento. Uma obra que não pergunta apenas quem é o monstro, mas quem precisa que ele exista.


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