Eu nasci onde o mapa foi rasgado
e mesmo assim aprendi a me chamar inteira.
Ser mulher latina
é crescer ouvindo que somos fogo demais
e depois descobrir
que era o mundo que precisava de luz.
Meu sobrenome carrega navios.
Carrega cruzes, bandeiras, espadas.
Carrega também sementes escondidas nos bolsos
de mulheres que fingiam submissão
enquanto tramavam futuros.
Eu sou o resultado dessa trama.
Há uma força na minha cintura
que não é convite,
é memória.
Memória de quem dançou para não enlouquecer,
de quem cantou para não gritar,
de quem riu alto
porque chorar em silêncio já era tradição demais.
Meu corpo foi narrado antes de mim.
Exótico. Quente. Fácil.
Como se eu fosse destino turístico
e não destino próprio.
Mas eu aprendi a reescrever a legenda.
Aprendi que sensualidade não é concessão,
é posse.
Que delicadeza não é fraqueza,
é estratégia ancestral.
Ser mulher latina
é entender a política no preço do arroz,
é medir a violência no olhar que atravessa a rua,
é transformar medo em curso universitário,
em livro publicado,
em filha criada com menos culpa.
É carregar o catolicismo nas paredes
e questioná-lo dentro do peito.
É amar a família
mesmo quando a família não entende
que amar uma mulher
ou não querer marido
ou querer o mundo
não é rebeldia,
é respiração.
Sou feita de contradições tropicais:
fúria suave,
fé crítica,
romantismo armado.
Carrego nas veias
um idioma que colonizaram
e outro que resistiu escondido.
Quando eu falo,
falam comigo mulheres que nunca aprenderam a escrever,
mas ensinaram o mundo a sobreviver.
Ser mulher latina
é estar sempre entre fronteiras:
entre o orgulho e o estereótipo,
entre o desejo e o perigo,
entre a festa e o luto.
Mas também é isto:
ser mar aberto.
Nós fomos ensinadas a caber.
Em casas pequenas.
Em salários mínimos.
Em expectativas mínimas.
E ainda assim
ocupamos cidades, universidades, camas, parlamentos,
ocupamos a linguagem
até que ela aprenda a nos pronunciar sem reduzir.
Eu não sou metáfora de calor.
Não sou estatística de violência.
Não sou fantasia estrangeira.
Sou herdeira de mulheres
que enterraram seus medos
e colheram coragem.
Sou mulher latina.
Não apesar da história,
mas através dela.

Deixe um comentário