Cartografia do que insiste

Hoje me pedem um poema
sobre o dia da mulher.

Como se houvesse um único mapa
para um território que sempre foi
feito de falhas sísmicas.

Sou mulher
mas minha bússola às vezes gira rápido demais.

Tenho um cérebro que acende
mil lâmpadas ao mesmo tempo
e esquece onde deixou o interruptor.

Dizem TDAH
como quem nomeia um vento.

Mas ninguém vê
o esforço heróico de segurar
cada pensamento que quer migrar
como pássaro em temporada errada.

Sou autista
e o mundo é uma sala cheia de rádios
ligados em frequências diferentes.

As pessoas chamam isso de silêncio meu.
Eu chamo de sobrevivência.

Ser mulher, para mim,
nunca foi aprender a ser delicada.

Foi aprender
a existir numa coreografia social
cuja música ninguém me ensinou.

E ainda assim
danço.

Sou pansexual
o que quer dizer que o amor, para mim,
não respeita fronteiras inventadas
por quem tem medo da vastidão.

Meu coração não lê placas
nem pede documentos.

Ele reconhece pessoas
como quem reconhece constelações.

Neste dia da mulher
esperam talvez
flores, frases prontas,
uma celebração domesticada.

Mas eu ofereço outra coisa:

o barulho da minha mente
que nunca se cala,

a estranheza do meu olhar
que vê padrões onde ninguém olha,

a coragem de amar
para além das cercas.

Ser mulher, para mim,
é existir em plural.

É carregar
sensibilidades que o mundo chama de excesso
e transformá-las em linguagem.

É ser muitas
mesmo quando o mundo pede
que eu seja simples.

Hoje não celebro apenas mulheres.

Celebro as que vivem
entre diagnósticos,
entre rótulos,
entre amores que desafiam a norma.

Celebro as que fazem da diferença
um tipo raro de fogo.

Porque há mulheres
que aprendem a caber no mundo.

E há mulheres
que reescrevem o tamanho dele.


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