Poemas
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Chamaram-na tentação,porque o fogo em seus olhos seduzia o medo.Chamaram-na monstro,porque o ódio aprendeu a rezar dentro de seu peito.Mas ela sabia o próprio nome:guerreira. Aicha nasceu do pó e do sangue,do grito das mães,do silêncio dos mortos sem sepultura.Sob a bandeira estrangeira,aprendeu cedo que a fome também é uma armae que o aço não
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Virginia escreve com mãos de neblina,Vita caminha com passos de hera antiga,duas mulheres num tempo que não as queria,mas a palavra queria. Amaram-se em cartas longas como mares,em tardes roubadas à moral do mundo,em beijos que o papel guardou melhor que a carne,pois o papel não acusa. Então Virginia, que amava transformações,fez do amor um
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Mama diz que família é isso:mãos que deixam marcase dizem que é carinho,“prova de que ainda nos amamos”,como ouvi na mesa, entre migalhas de tortae olhos que me vigiavam como iscas prontas Eu cresci aprendendoque o prato limpo vale mais que a pele limpa,e que nada aquece a casacomo o cheiro de algo sendo assado,fosse
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Dizem que a floresta leva o que ama.Eu não acreditei, até sentir tuas mãosafundando em meu peito como quem planta algo. Tuas palavras eram raízes, e eu, solo.Aceitei teu toque como quem aceita a febre:sabendo que cura e destrói da mesma forma. Agora, quando respiro, ouço folhas.Quando durmo, sonho com dentes sob a terra.A floresta
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Caminho em círculos,sempre volto ao mesmo ponto.A amizade é um espelho rachadoque devolve a mesma imagem,mesmo quando tento fugir. Sorrisos cansados,promessas que não duram,gestos que escondem a queda.O afeto se veste de cuidado,mas por baixo é corrente e faca. Aprendemos a cair juntos,a levantar só para repetir.É dança sem música,é pacto de silêncio,é laço que
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Acordei tropeçando no tempo,antes que o dia pudesse nascer em mim.Vieram pedras travestidas de palavras,cada sílaba um corte,cada frase, um fardo impossível de sustentar. No almoço, não havia pão,mas culpas que nunca foram minhas.Apontaram-me como doença,quando sou apenas ferida exposta,implorando por cuidado,por um gesto breve de presença. E agora,quando a semana prometia sorrisos,só ecoa a
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Na casa dos ecos e portas fechadas,o trovão desceu mais cedo que o céu.Não foi raio de chuva nem vento nas telhas,foi o tempo mudando por dentro do véu. O velho carvalho, de tronco pesado,costumava ranger, resmungar, estremecer.Mas naquele dia, em vez de trovões,veio o galho curvado, disposto a ceder. A menina — folha mais
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Cresci no castelo de um rei sem espelho,Que usava meus olhos pra ver seu brilho.Suas palavras eram coroas de espinho,E o amor, um cetro que pesava sozinho. Na mesa, só havia um prato cheio —O dele.E eu, faminta de afeto,Aprendi a viver de migalhas de ego. Ele pintava o céu com seu próprio nome,E chamava
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Forjamos saber com sangue.Prata, tinta, ossos.Cada palavra traduzidamatava uma outra — em silêncio. Babel brilhava como um farol,mas o brilho era febre,não luz. Os livros sussurravam verdadesque só serviam àquelescom os pés fincados em terra roubada. Fomos escolhidos.Mas não para entender —para servir. Nas torres, aprendemos a traircom frases elegantes.A roubar o mundocom um léxico
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No ventre escuro da mata esquecida,onde o silêncio respira temor,ergue-se a forma que nunca é bem-vinda,nascida da terra, da dor e do horror. Tem chifres de galho, olhos de abismo,passos que o chão não ousa negar.É sombra vestida de antigo batismo,o eco que veio pra reclamar. A vila cochicha com voz contida,reza a um céu