Poemas
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Forjamos saber com sangue.Prata, tinta, ossos.Cada palavra traduzidamatava uma outra — em silêncio. Babel brilhava como um farol,mas o brilho era febre,não luz. Os livros sussurravam verdadesque só serviam àquelescom os pés fincados em terra roubada. Fomos escolhidos.Mas não para entender —para servir. Nas torres, aprendemos a traircom frases elegantes.A roubar o mundocom um léxico…
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No ventre escuro da mata esquecida,onde o silêncio respira temor,ergue-se a forma que nunca é bem-vinda,nascida da terra, da dor e do horror. Tem chifres de galho, olhos de abismo,passos que o chão não ousa negar.É sombra vestida de antigo batismo,o eco que veio pra reclamar. A vila cochicha com voz contida,reza a um céu…
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Na penumbra onde a razão apodrece,ele caminha — terno, preciso,com olhos que cortam mais fundoque o bisturi em sua mão de artífice. Cada palavra: um prato.Cada silêncio: um vinho tinto e espesso.Ele serve a morte com tal elegânciaque a culpa se curva, agradecendo. As vísceras, expostas como arte.O corpo, um templo profanado com estilo.Na carne…
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Ele me vê.Não como os outros —mas como a fera reconhece o espelho. Seus olhos me despem em silêncio,cirurgicamente.Não há toque, mas sangro. Caminhamos lado a ladoem corredores onde a ética apodrece,e a moral é apenas mais um bisturina mesa de dissecação. Ele fala com beleza,como se a morte fosse um idioma raroe eu… seu…
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Rompe a romã seu ventre na estação como se o tempo abrisse a própria carne — sangra em silêncio, lenta, no quintal vida contida. Tudo que é cheio um dia se derrama: sonhos, segredos, lutos, esperanças. Cada rubi que escorre em sua polpa traz uma história. Guardo romãs na taça da memória, frutos que amei,…
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Vou ser bem sincera, não dá mais pra esconder, Ela usou demais da minha bondade, sem perceber. Foi na minha casa, com um sorriso a enganar, Pediu minhas coisas, e eu deixei sem questionar. Emprestei meu tempo, minha energia, sem medir, Mas o que recebi? Só silêncio a me consumir. Dei o que tinha, sem…