• A flor no inverno

    A flor no inverno

    Na casa dos ecos e portas fechadas,
    o trovão desceu mais cedo que o céu.
    Não foi raio de chuva nem vento nas telhas,
    foi o tempo mudando por dentro do véu.

    O velho carvalho, de tronco pesado,
    costumava ranger, resmungar, estremecer.
    Mas naquele dia, em vez de trovões,
    veio o galho curvado, disposto a ceder.

    A menina — folha mais alta do ramo,
    já conhecia o rugido do inverno,
    o estalo das janelas, a dor nos silêncios,
    o frio que se esconde no fundo do terno.

    Mas quando o galho partiu sem aviso,
    o ar ficou denso, o mundo girou.
    Foi a primeira vez que a terra rachou
    bem debaixo da flor que não desabrochou.

    Ela calou como quem guarda segredo,
    como quem aprende a sorrir com cuidado.
    Sabia que às vezes o céu mais azul
    também esconde um trovão disfarçado.

    E na sala onde o tempo desfez os retratos,
    ela cresceu, um pouco mais curva, um pouco mais só.
    Não se quebra só quando o galho estala.
    Às vezes, é o som que vem depois que se faz o nó.

  • A corte das cartas marcadas

    No coração de uma academia sombria onde cada carta carrega poder e perigo, Elise Kova conjura uma fantasia irresistível de falsos noivados, segredos proibidos e uma heroína que desafia o destino com um baralho encantado

    Arcana Academy, de Elise Kova, é uma mistura irresistível de fantasia romântica, intriga mágica e protagonistas moralmente ambíguos, ambientada em um universo onde o poder é medido por aquilo que se ousa esconder. Com sua escrita envolvente e uma premissa que mescla ação furtiva e romance de conveniência, a autora dá início a uma nova série que promete conquistar fãs de magia sombria e paixões perigosas.

    A protagonista, Clara Graysword, não é uma heroína tradicional, e esse é um dos pontos fortes do romance. Criada na criminalidade da decadente Eclipse City, ela sobrevive por meio de pequenos golpes, truques de rua e uma habilidade extremamente rara: a de “tatuar” magia viva em cartas de tarô, uma prática altamente ilegal fora da elite da Arcana Academy. A história começa quando Clara é capturada após uma missão fracassada e condenada à prisão perpétua. É aí que surge Prince Kaelis, o misterioso e aparentemente imperturbável reitor da academia mágica, com uma proposta que é tão absurda quanto tentadora: liberdade em troca de um falso noivado… e de um plano de roubo mágico de proporções reais.

    A relação entre Clara e Kaelis é construída sobre desconfiança e cinismo mútuo, mas recheada de faíscas desde o início. Não se trata de um romance açucarado, e sim de uma dinâmica complexa, feita de manipulação, atração velada e alianças frágeis. Clara é sagaz, cética e movida por sobrevivência, não por sonhos. Kaelis, por outro lado, é uma esfinge envolta em poder e segredos, que oferece proteção, mas também perigo. A tensão romântica entre os dois cresce com naturalidade, construída mais sobre os não ditos do que sobre declarações apaixonadas, o que torna tudo mais envolvente.

    O cenário da Arcana Academy adiciona um charme sombrio à narrativa. Ao contrário das tradicionais escolas de magia luminosas e acolhedoras, aqui o ambiente é um labirinto de regras políticas, segredos ocultos e disputas de poder. Cada carta de tarô mágica representa não apenas um feitiço, mas uma posição de influência, e o ato de “criar” cartas, reservado aos escolhidos, torna Clara uma ameaça e uma peça-chave em um jogo muito maior do que ela imaginava. A estrutura da academia, com seus clãs, castas e jogos de manipulação, lembra vagamente Hogwarts se tivesse sido projetada por Maquiavel.

    A trama avança em ritmo sólido, sem se perder em explicações excessivas do sistema mágico. Ao invés disso, Kova opta por uma construção orgânica: aprendemos com Clara, descobrimos os perigos e possibilidades dos tarôs mágicos à medida que ela os domina e se infiltra no meio acadêmico e aristocrático da Arcana. O sistema de magia baseado em cartas é uma das ideias mais criativas do livro, com ecos de Shadow and Bone e Caraval, mas com uma originalidade própria, especialmente na relação simbiótica entre poder, arte e identidade.

    Embora o foco esteja em Clara e Kaelis, os coadjuvantes ganham vida com personalidades distintas: rivais perigosos, aliados relutantes, e figuras da realeza que jogam conforme interesses próprios. Cada personagem parece carregar uma agenda, o que contribui para a atmosfera constante de tensão, ninguém é completamente confiável, e todos parecem ter algo a perder.

    Mas o que diferencia Arcana Academy de outras fantasias românticas do gênero é seu questionamento moral. Clara está constantemente entre duas forças: Kaelis, com sua proposta de um mundo novo e menos opressivo, e a tentação de usar o poder das cartas para si mesma. Ela não é uma revolucionária altruísta, mas tampouco uma vilã fria. É alguém tentando encontrar liberdade em um mundo que a considera descartável e disposta a arriscar tudo, inclusive o coração, para alcançá-la.

    Com uma escrita acessível, ágil e pontuada por diálogos inteligentes, Elise Kova entrega um primeiro volume que funciona como uma introdução eficiente a um mundo que ainda tem muito a revelar. O final, com seus ganchos estratégicos e revelações bem posicionadas, deixa claro que Clara tem muito mais por enfrentar e o leitor, muito mais por descobrir.

  • Entre os mortos só resta a linguagem

    Uma resenha crítica de quem desceu e voltou do inferno com R.F. Kuang

    R.F. Kuang mais uma vez escancara as entranhas da academia, mas desta vez ela o faz não apenas com o rigor de uma crítica social, ela o faz com fogo e magia. Em Katabasis, a autora leva seus leitores por uma jornada literal ao Inferno, reimaginado como um campo de batalha acadêmico, filosófico, mítico e emocional. É uma narrativa carregada de erudição e paixão, onde os limites entre o intelecto e a alma são não só borrados, mas desmantelados com precisão cirúrgica.

    A protagonista, Alice Law, é uma jovem brilhante, obcecada por ser a melhor em magia analítica, uma disciplina que combina lógica formal, matemática, linguística e prática arcana. Desde o início, sabemos que ela sacrificou tudo: relações, estabilidade mental, corpo e afetos. Ela está completamente moldada e deformada pelo sistema acadêmico que venera. E é esse sistema que desmorona diante de seus olhos quando seu mentor, Jacob Grimes, o maior mago vivo, morre subitamente durante um experimento.

    A partir daí, Kuang articula um enredo com ecos de A Divina Comédia, Orfeu e Eurídice e até Journey to the West (clássico da mitologia chinesa). Alice, guiada pela culpa e pelo medo de perder o pouco que conquistou, decide literalmente descer ao Inferno para resgatar o professor. Não por amor, mas por sobrevivência. Por reputação. Por obsessão.

    Mas o Inferno de Katabasis não é um submundo uniforme. É um arquipélago de tormentos lógicos, morais e burocráticos. Cada círculo parece fundado não em pecados religiosos, mas em distorções estruturais do conhecimento, da ética, do desejo de poder. E ao lado dela vai Peter Murdoch, seu rival na pós-graduação, que carrega suas próprias fraturas e ambições. A dinâmica entre eles, cheia de tensão, sarcasmo, ferocidade intelectual e, por vezes, uma vulnerabilidade pungente, é um dos grandes trunfos do livro.

    A estrutura da narrativa também reflete esse labirinto infernal. Kuang alterna entre ação direta, diálogos ferinos, trechos que soam como tratados filosóficos, e momentos de pura introspecção lírica. A prosa é refinada, cheia de referências explícitas a Dante, Homero, Platão, mas também a pensadoras contemporâneas e à mitologia chinesa, que insinuam uma dualidade cultural importante na formação de Alice.

    O que torna Katabasis tão poderoso, no entanto, não é só seu brilhantismo técnico. É sua honestidade brutal sobre o que é estar em um ambiente que exige perfeição enquanto silencia afetos, desejos e corpos. Alice é uma mulher atravessada pela misoginia institucionalizada, pela lógica da meritocracia destrutiva, pelo mito do gênio e por isso mesmo sua jornada é profundamente comovente. Ela não é heroína. É sobrevivente.

    O título do livro já nos prepara: “katabasis” é a descida ao mundo dos mortos, o mergulho no abismo, um rito antigo presente em múltiplas tradições. Mas Kuang não quer apenas reencenar mitos. Ela quer mostrar como estamos todos já vivendo neles. Como a academia se tornou, para tantos, um tipo de inferno ritualizado. E como, mesmo no mais árido dos lugares, ainda resta a linguagem. Ainda resta escrita. Ao fim, não há promessa de salvação, apenas de compreensão. Talvez isso seja o bastante. Talvez seja tudo que podemos pedir de um livro: que ele nos desça ao mais fundo de nós, e nos devolva algo novo. Mais ferido, sim. Mas também é mais verdadeiro.

  • O Sítio dos Esquecidos

    Na zona rural de Monte Verde, existe uma estrada de terra por onde ninguém se atreve a passar depois do pôr do sol. Dizem que ela leva ao antigo sítio dos Alencar — um lugar engolido pelo mato, onde o tempo parece ter parado e os cães já não latem. Foi lá que, vinte e dois anos atrás, uma moça desapareceu. A polícia procurou por meses. Os pais enlouqueceram. Mas nunca encontraram nada. Nem uma unha. Nem um grito.

    O nome dela era Mariana. E ela era minha.

    Nos amávamos às escondidas, como quem guarda um pecado. Mariana dizia que, quando nos formássemos, iríamos embora. Que viveríamos em um sítio, com cavalos, manacás e paz. Falava com uma esperança que destoava daquela cidade tão apodrecida.

    Na noite em que sumiu, ela me ligou chorando. Disse que o pai descobrira tudo. Que ia fugir naquela madrugada.
    “Me encontra na estrada velha. Três da manhã. Não falha.”

    Eu fui. Esperei. Ela nunca veio.

    Hoje é sexta-feira 13. Vinte e dois anos depois. E eu voltei. Voltei porque recebi uma carta. Papel amarelado, dobrado em quatro. A mesma caligrafia curva dos bilhetes que ela escondia nos meus livros da escola.

    A carta dizia:
    “Ainda estou aqui. Me encontra na estrada. Três da manhã. Como combinamos.”

    Meu coração socava por dentro. A estrada seguia a mesma. Só mais escura. Mais morta.

    O vento cortava rente aos ouvidos. O capim alto se movia devagar, como se respirasse. E então… eu a vi.

    De pé, no meio da estrada. Usava o mesmo vestido azul da última noite. Mas agora o tecido estava manchado, encharcado de uma lama escura que parecia brotar de dentro dela. O rosto… torto. O maxilar deslocado, costurado por dentro com algo que brilhava como arame. Ainda assim… era Mariana.

    “Você tá viva?” Minha voz falhou.

    Ela sorriu. Devagar. Um sorriso que se esticava além do possível. Os dentes — escurecidos nas bordas, a gengiva como papel queimado.

    “De certa forma. Mas preciso que você me ajude… a lembrar.”

    “Lembrar do quê?”

    Ela estendeu a mão. Fria. Suja de terra sob as unhas. E apontou para mim.

    “De quem me matou.”

    Corri.

    Os gritos dela me rasgaram por dentro, como farpas de vidro.

    Mas consegui fugir.

    Voltei no dia seguinte, de manhã. Levei uma pá. Cavei onde ela indicou: debaixo da figueira torta. Encontrei ossos. Um crânio. E o colar que eu mesma dera a ela no nosso último aniversário. Mas havia mais. Entre os ossos, um diário. Eu não me lembrava dele. Mas ele se lembrava de mim.

    As páginas estavam rasgadas, mas li as últimas linhas:
    “Ela descobriu. A irmã também está grávida. Do mesmo homem. Disse que, se eu contasse, me matava. Mas se eu escondesse… ela mataria ele. Então menti. Só que agora ela sabe. Agora é tarde.”

    O mundo escureceu dentro de mim. Porque eu lembrei.

    Lembrei da briga. Dos gritos. Do empurrão.
    Do som oco da cabeça dela rachando na pedra.
    Fui eu quem cavou. Fui eu quem escondeu. Fui eu quem esqueceu.

    Mariana nunca desapareceu. Eu a matei.

    Joguei a pá fora. Queimei o diário. Tentei seguir em frente. Mas naquela noite, alguém bateu na minha porta.

    Não era uma nova carta. Era Mariana.

    O mesmo vestido. O mesmo sorriso. Mas atrás dela… mais gente. Pessoas que eu conhecia. Pessoas que haviam desaparecido ao longo dos anos. Todos com olhos fundos. Todos sorrindo.

    Ela me olhou e disse:

    “Lembra que a gente ia ter um sítio? Agora temos. Só falta você morar lá. Com a gente. Pra sempre.”

    Ninguém nunca mais viu a mulher que cavou sob a figueira. Mas toda sexta-feira 13, uma nova carta é entregue. A letra é dela. O papel, o mesmo.

    E sempre que isso acontece, alguém desaparece.

    Porque Mariana não quer só justiça.
    Ela está montando uma família.

  • O que anda sob a pele

    O que anda sob a pele

    Há histórias que não pertencem ao agora. Elas se arrastam desde tempos antigos, caminhando sob a pele da Terra, entre rochas vermelhas e desertos silenciosos. No coração das crenças do povo Navajo — e ecoando entre outras tribos do Sudoeste, como os Ute, Hopi e Pueblo — vive um nome que poucos ousam pronunciar: yee naaldlooshii. Aquele que caminha em quatro patas.

    Um skinwalker, dizem, não é apenas um monstro. É um lembrete. Uma consequência. Um aviso sussurrado geração após geração sobre os limites que não se devem cruzar.

    Conta-se que um homem — ou mulher, não importa — para se tornar um skinwalker, precisa antes trair o próprio sangue. Um sacrifício íntimo, fatal, que arranca do mundo natural a última centelha de humanidade e a substitui por um poder sombrio: a habilidade de mudar de forma, invadir corpos, vestir peles de animais ou até de pessoas, e assim semear o medo. Urso, coruja, coiote — cada forma escolhida não é aleatória, mas estratégica, como se o mal também soubesse de tática.

    Esses seres não apenas mudam de corpo. Eles mudam o ar. Onde passam, os cães se escondem, os olhos ardem, o silêncio pesa. Eles batem nas janelas durante a noite, imitam vozes queridas, arrastam presenças mortas pela escuridão como quem arrasta correntes esquecidas. E mesmo assim, não são vistos com frequência. Eles são sentidos.

    Entre os povos que guardam essa história, falar sobre skinwalkers é mais do que um tabu. É abrir uma porta. Acredita-se que nomeá-los atrai sua atenção. Que o simples ato de narrar já é um chamado. Por isso, os velhos preferem o silêncio. E quando falam, fazem-no com olhos baixos e palavras contidas, como quem respeita algo que ainda está à espreita.

    Mas o mundo lá fora — aquele das câmeras, dos roteiros e dos documentários sensacionalistas — não se cala. O caso do Rancho Skinwalker, por exemplo, transformou a criatura num ícone pop: gado mutilado, ruídos inexplicáveis, sombras que correm mais rápido que a razão. E ali, onde o folclore virou atração, a linha entre o medo e o espetáculo foi enterrada sob holofotes.

    Há quem acredite piamente. Há quem ache tudo isso invenção. Mas a verdade é que essa dúvida diz mais sobre nós do que sobre eles. Os skinwalkers são, acima de tudo, parte de uma tapeçaria cultural profunda — uma história que carrega, ao mesmo tempo, terror e sabedoria. São símbolos do que acontece quando o equilíbrio se rompe, quando o espírito humano vira arma.

    E talvez esse seja o maior valor dessas histórias: lembrar que há fronteiras espirituais que não deveriam ser violadas. Que a natureza — e o sobrenatural — exige reverência. Que nem tudo deve ser traduzido, filmado ou explicado.

    Afinal, algumas histórias não foram feitas para entretenimento.

    Foram feitas para silêncio.

  • Maré Eterna

    Maré Eterna

    Nas falésias enevoadas da vila de Brannoch, o vento carregava um lamento antigo, quase como uma canção esquecida do mar. Marisa caminhava descalça pela areia fria, sentindo o corpo enfraquecer a cada passo, o peso da doença roubando-lhe a vida como uma maré lenta e implacável. Ainda assim, havia em seu olhar uma luz tênue, uma esperança frágil que se agarrava ao infinito das ondas.

    Numa noite em que a lua parecia um espelho prateado sobre o mar, Evora emergiu das águas, sua pele translúcida brilhando sob a luz suave, seus olhos profundos como abismos. Ela sentiu, com uma dor aguda no peito, a tristeza de Marisa, uma alma que lutava contra o inevitável. Sem hesitar, Evora se aproximou, e quando seus olhares se encontraram, algo indescritível nasceu — um amor intenso, urgente e proibido, tão frágil quanto a vida que se esvaía entre os dedos de Marisa.

    Evora deixou sua pele de foca cair, aceitando o preço de abandonar o mar para estar ao lado de quem amava. Cada toque era um sussurro de eternidade, cada sorriso um desafio ao tempo cruel que os separava. Sob o céu carregado de estrelas, entre tempestades e silêncios, elas viveram um amor que queimava mais forte do que a dor e o medo. Marisa segurava a mão de Evora como se fosse a única âncora em um mundo que desmoronava.

    Mas o destino é implacável. A doença continuava sua dança sombria, roubando as cores do rosto de Marisa, apagando lentamente sua presença. Evora sentia seu coração despedaçar a cada fraquejo da amada, a cada respiração que se tornava mais difícil, como se o próprio mar lhe arranhasse a alma.

    Desesperada, Evora mergulhou nas profundezas abissais, enfrentando monstros antigos, correntes traiçoeiras e o silêncio mortal do oceano. Buscou entre segredos ancestrais uma cura, um milagre que pudesse estender os poucos momentos que ainda restavam. Mas o mar, vasto e poderoso, não podia dobrar as leis do tempo, nem desfazer o fio trágico do destino.

    Quando Evora retornou, trazendo um relicário feito das conchas negras e lágrimas salgadas do oceano, encontrou Marisa quase sem forças, os olhos semiabertos, como se já caminhando para um sonho eterno. Com a voz embargada, Evora sussurrou: “Eu tentei tudo, mas nem mesmo o mar pode vencer o que te consome”.

    Marisa, com um sorriso triste e a mão fraca acariciando o rosto da selkie, respondeu: “Nosso amor é mais forte que a morte. Nem a escuridão que me leva pode apagar o que vivi contigo. Quando eu me for, lembrarei de você no som das ondas, no beijo do vento, no silêncio da noite”.

    Naquela última noite, sob uma lua vermelha que parecia chorar sangue, Evora segurou Marisa no colo, sentindo cada segundo fugir como a maré que se retira da praia. As lágrimas de Evora misturavam-se ao sal do mar enquanto ela sussurrava palavras de amor e despedida. “Eu te amo” repetia, como uma prece desesperada — “não importa onde você vá, meu coração será seu abrigo eterno”.

    Marisa fechou os olhos pela última vez, deixando escapar um último suspiro, quase um pedido: “Leve meu amor para o mar… deixe que ele nos proteja onde a terra não pode”.

    Quando a aurora rompeu o céu, o corpo de Marisa, sereno, estava envolto pelas algas negras, como um último abraço do oceano. Evora mergulhou nas profundezas, sua dor imensa como as sombras abissais, sabendo que perdera a única vida que queria salvar.

    O amor delas agora vivia nas ondas, uma maré eterna de saudade, um sussurro triste no vento que nunca cessaria.

  • Reino de um só trono


    Cresci no castelo de um rei sem espelho,
    Que usava meus olhos pra ver seu brilho.
    Suas palavras eram coroas de espinho,
    E o amor, um cetro que pesava sozinho.

    Na mesa, só havia um prato cheio —
    O dele.
    E eu, faminta de afeto,
    Aprendi a viver de migalhas de ego.

    Ele pintava o céu com seu próprio nome,
    E chamava de tempestade qualquer sombra que não fosse sua.
    Se eu chorava?
    Dizia que o chão era fraco demais pra sustentar meus passos.

    Fui jardim sem sol,
    Regado a exigência,
    Podado sempre que florescia fora do molde.

    Meu riso era silêncio sob o rugido da sala,
    Minha alegria: uma vela que ele apagava com sopro de raiva.
    Nunca fui criança —
    Fui moldura dourada para um retrato que não era meu.

    Mas um dia, o vento me contou
    Que há florestas fora dos muros.
    Que o mundo não gira só num trono.
    Que o eco do meu nome também merece espaço.

    Ainda não parti.
    Meus pés conhecem os portões, mas não o caminho.
    A chave ainda não é minha.
    Mas guardo no peito o mapa da fuga,
    E um grão de coragem, escondido na palma.

    Ainda danço no salão que ele vigia,
    Com passos miúdos e olhos abertos.
    Mas mesmo cercada de espelhos que distorcem,
    Eu sei: existe algo em mim que não pertence a ele.

    E isso…
    Ele nunca poderá apagar.

  • O Banquete de Amora

    O Banquete de Amora

    Ela surgiu numa terça-feira úmida, dessas em que o ar parece suado, prenhe de alguma febre invisível. Vestia um tecido que grudava no corpo como carne viva — um vermelho de miolo exposto, nada parecido com os vermelhos alegres dos comerciais. O nome que me deu foi Amora. E ela tinha gosto de fruta fermentada, de coisa esquecida no fundo do bosque, onde a podridão vira perfume.

    Nos conhecemos na porta de um açougue fechado. Eu carregava músculo bovino em sacola de plástico; ela só carregava fome. Olhou pra mim como quem lê o cardápio de trás pra frente — das entranhas à casca. Disse que adorava carne humana. Eu ri. Pensei que fosse humor alternativo. Era preâmbulo.

    Amora me amou com os dentes antes de me tocar com as mãos. Me beijava como quem rasga envelope com a boca, ansiosa por alguma mensagem secreta escondida sob a pele. Dizia que “amor de verdade se digere”, e que o único jeito de me ter era me consumir — parte por parte, em longos rituais de mesa posta e luxúria transbordada.

    Ela me tratava como prato principal, mas com ternura de chef. Sabia os meus cortes mais nobres: a maciez do pescoço, o ponto exato entre a clavícula e a saudade. Passava azeite nos meus ombros, enfeitava meu corpo com alecrim, e recitava orações feitas de saliva.

    No início, eram só mordidas. Mimos. Dentadas que ficavam entre o prazer e o hematoma. Mas logo ela começou a colher pedaços. Um naco de coxa aqui. Um fragmento de língua durante um beijo mais faminto. Eu deixava. Não por submissão — mas por um desejo sagrado de ser albergada dentro dela. Ser digerida era, para mim, a forma mais pura de permanência.

    Nosso quarto era meio altar, meio frigorífico. Velas pretas pingando cera espessa. O lençol manchado como tábua de corte. O cheiro? Uma mistura entre incenso e sangue morno — familiar, quase acolhedor. O amor ali não era metáfora: era faca. E cada “eu te amo” vinha seguido de uma incisão.

    Na última noite, ela chorou. Gotas salgadas misturadas ao molho que preparava. Sussurrou que eu era o último banquete — o final perfeito para o jejum que ela havia sido antes de mim. Me despiu com a reverência de quem desembrulha oferenda. Ajoelhou-se. Me abriu.

    Senti a língua dela passear por dentro como quem conhece a casa pela primeira vez, encantada com cada cômodo. Quando segurou meu coração com as mãos — quentinho, pulsando, obediente —, eu sorri. Não por coragem. Por entrega.

    E ali, entre garfadas de mim e goles do meu sangue quente, entendi tudo:

    Amora não me queria morta.

    Me queria eterna.

    Hoje, se cruzarem com ela por aí, prestem atenção:

    Ela anda com um brilho no olhar que não é dela.

    Talvez percebam um certo jeito meu de morder o mundo, um sorriso que nunca foi só dela.

  • Eco em Prata

    Eco em Prata

    Forjamos saber com sangue.
    Prata, tinta, ossos.
    Cada palavra traduzida
    matava uma outra — em silêncio.

    Babel brilhava como um farol,
    mas o brilho era febre,
    não luz.

    Os livros sussurravam verdades
    que só serviam àqueles
    com os pés fincados em terra roubada.

    Fomos escolhidos.
    Mas não para entender —
    para servir.

    Nas torres, aprendemos a trair
    com frases elegantes.
    A roubar o mundo
    com um léxico encantado.

    Chamavam de ciência.
    Mas era feitiçaria imperial,
    escrita à custa de línguas extintas
    e nomes apagados como poeira.

    Fomos cúmplices.
    Fomos mártires.
    Fomos… necessários?

    As chaves que giramos nos portões da mudança
    também trancaram nossas próprias prisões.

    E agora Babel ruge.
    Mas não em glória.
    Em queda. Como toda torre feita de orgulho
    e mentiras bem traduzidas.

  • O Deus Esquecido

    O Deus Esquecido

    No ventre escuro da mata esquecida,
    onde o silêncio respira temor,
    ergue-se a forma que nunca é bem-vinda,
    nascida da terra, da dor e do horror.

    Tem chifres de galho, olhos de abismo,
    passos que o chão não ousa negar.
    É sombra vestida de antigo batismo,
    o eco que veio pra reclamar.

    A vila cochicha com voz contida,
    reza a um céu que nunca responde.
    Mas ele escuta — a prece perdida
    que brota do sangue e se esconde.

    Os homens o chamam de praga e veneno,
    acusam com fogo, com cruz e com fé.
    Mas nunca se olham no espelho pequeno
    que guarda o mal de onde ele é.

    Na escuridão, uma alma se parte,
    e o medo se curva ao que não se vê.
    Pois há mais verdade na morte que arde
    do que em mil promessas de não ser quem é.

    Ele não fala — mas tudo entende,
    pois fala o idioma da raiz que apodrece,
    do osso quebrado, da carne que rende,
    da alma queimada que nunca esquece.E dança.
    Dança com a noite, com os vermes, com o lodo,
    pois sabe que o mundo não teme o demônio,
    teme o retorno de um deus sem decoro,
    que vem da floresta… pra cobrar o que é todo.