Clara e Lívia nunca souberam que as palavras que traziam à tona a verdade e o caos nas suas reportagens também seriam as que cavariam um abismo entre elas, uma linha tênue que separa o amor da dor.
Ambas jornalistas, ambas mulheres, ambas devotas da busca pela verdade, mas com uma diferença irreparável: Clara, a que desvelava os fatos com precisão clínica, implacável, enquanto Lívia caçava as tragédias, as tragédias invisíveis, que se escondem no âmago da dor humana, com uma sensibilidade que se transbordava em poesia. Elas se conheciam como se conhecem os ecos de um lugar que nunca se esquece. Durante anos, as trocas de olhares disfarçados e os silêncios compartilhados foram a base de uma amizade que nunca ousaram questionar. Mas, aos poucos, o que antes era parceria começou a ser algo mais — algo perigoso, inquietante, insustentável.
O escritório delas era pequeno, abafado, uma cápsula onde o peso das matérias urgentes se empilhava ao lado de prazos que nunca se cumpriam. Ali, no caos do jornalismo, havia uma quietude entre elas. Nos intervalos, quando se cruzavam nas pequenas pausas para um café ou uma refeição rápida, as conversas mudaram. De questões políticas e tópicos profissionais, passaram a falar de si mesmas, de suas fragilidades, dos pedaços de si que preferiam esconder. As risadas contidas de Lívia começaram a carregar um timbre estranho, um calor, algo que Clara não soubera identificar até então. E Lívia, que sempre via o sofrimento alheio através das palavras, começou a escrever cartas para Clara, cartas que nunca seriam enviadas, mas que falavam mais de sua alma do que qualquer matéria que já escrevera.
Ambas estavam marcadas por histórias difíceis, amores perdidos, feridas antigas que ainda sangravam. Mas o jornalismo, que as unia, acabou por ser o espaço que as afastava. Clara sentia cada vez mais que a dor de amar Lívia pesava mais que a leveza de sua presença. E Lívia, mergulhada em suas próprias sombras, parecia temer o encontro com sua verdade, como se o que estava acontecendo entre elas fosse uma tempestade que elas não poderiam controlar.
O fim se desenhou em uma tarde que parecia igual a tantas outras, mas que, com o peso do destino, tornou-se irrevogável. Elas estavam juntas, no escritório, redigindo uma matéria sobre mulheres desaparecidas. O texto estava imerso em uma dor pungente, como se a própria tragédia dos desaparecimentos estivesse se infiltrando em suas almas. Foi ali, naquele momento de melancolia, que Clara olhou para Lívia não como colega, mas como mulher. O que antes era uma amizade profunda, agora se tornava um abismo de desejo não dito, de um amor que não podia ser expresso. Clara se aproximou, hesitante, como se fosse uma prece que não soubesse se poderia ser dita. Lívia, com o olhar distante, os lábios entreabertos, parecia não perceber que sua própria resistência era a dor de um amor não correspondido.
“Eu… eu não posso,” disse Lívia, como se palavras fossem facas afiadas, cortando o espaço entre elas. “Não podemos nos perder no que não podemos controlar.”
Aquelas palavras, baixas e pesadas, se cravaram na alma de Clara como um golpe, mas ela já sabia. Sabia que não havia mais espaço entre elas. Sabia que o que sentiam não tinha mais lugar no mundo que habitavam, que aquele amor não poderia ser contado nas páginas de um jornal, não poderia ser feito de palavras que se cruzam e se diluem em uma reportagem qualquer.
Lívia levantou-se, pegou sua bolsa, e se afastou. Clara permaneceu ali, com os dedos ainda tocando a borda da mesa, como se tentasse segurar algo que se desintegrava entre suas mãos. Não houve mais palavras. Não houve mais gestos. O que restou foi o silêncio de uma história não escrita, de um amor que não teve chance de existir, de uma última linha que jamais seria traçada.
Dias depois, Clara entregou sua matéria. As palavras estavam ali, mas faltava algo. Havia um buraco vazio entre as frases, como se a dor de um amor não correspondido tivesse se infiltrado em cada letra. Ela sabia, com uma certeza amarga, que aquelas palavras não podiam descrever o que havia se perdido entre ela e Lívia.
A tragédia não estava no amor que nunca se concretizou, mas no silêncio que tomou o lugar das palavras. Na última linha, que nunca seria escrita, que talvez fosse melhor assim. Porque, no fim, algumas histórias, as mais trágicas, são aquelas que não podem ser contadas.

Deixe um comentário