• Fúria em Fá Menor

    Fúria em Fá Menor

    Elena Marés nasceu com os ouvidos banhados em música, em uma pequena vila costeira onde o vento soprava como uma sinfonia. Filha de uma professora de música e um marinheiro, ela aprendeu a tocar piano antes mesmo de aprender a escrever o próprio nome. Aos sete anos, já reproduzia de ouvido peças que ouvia apenas uma vez. Aos doze, era chamada de prodígio. Aos dezessete, de promessa. Aos vinte e três, era lenda.

    Mas fama nunca foi o que Elena buscava. O piano era sua forma de falar, de existir. Palavras nunca couberam nela do jeito que as notas cabiam. E foi através da música que ela conheceu Maya.

    Maya Ferraz era jornalista de música clássica, dona de um sorriso torto e uma coragem que atravessava paredes. Foi ela quem, certa vez, invadiu um ensaio exclusivo só para entrevistar Elena. Saíram juntas daquela sala com os corações trocados, e nunca mais devolveram.

    Por anos, foram inseparáveis. Viagens, recitais, jantares às escondidas. Elena escrevia peças só para Maya. Maya escrevia crônicas só para Elena. Era amor, daquele tipo que se percebe de longe. Inquebrável, até que alguém tentou quebrar.

    Esse alguém era Lídia Von Auster. Regente consagrada, dona de uma academia prestigiada de música em Viena, e… antiga mentora — e obsessão — de Elena.

    Lídia descobriu Elena ainda jovem, moldou seu talento, lapidou sua técnica… e tentou apagar sua alma no processo. O amor de Maya salvou Elena disso. Lídia não perdoou.

    Nos bastidores do mundo clássico, onde a aparência de elegância esconde facas afiadas, rumores começaram a se espalhar. Contratos foram cancelados, convites desapareceram, e o nome de Elena foi progressivamente apagado das grandes temporadas europeias.

    Maya investigou. E o que encontrou foi mais do que difamação: foi perseguição. Manipulação. Chantagem. Atingia não só a carreira de Elena, mas também suas finanças, sua saúde, sua liberdade.

    Elena afastou-se dos palcos por dois anos. Foi Clara quem manteve tudo em pé — a casa, os sonhos, o amor. Até que um convite chegou.

    Um último concerto. Uma homenagem à arte, com os nomes mais influentes da música clássica. Um palco histórico. Público global. E, nos bastidores da organização… Lídia Von Auster.

    Maya sabia que era uma armadilha. Elena também. Mas aceitaram.

    “Ela quer me ver dobrar,” disse Elena.
    “Então mostre a ela o que acontece quando tentam quebrar você,” respondeu Maya.

    Na noite do concerto, tudo estava perfeitamente preparado. O vestido, o repertório, a plateia cheia. Mas algo estava errado. Maya sumiu minutos antes de Elena subir ao palco.

    E quando a cortina se abriu, e a luz tocou o piano, Elena finalmente a viu — no camarote à esquerda, ajoelhada, com a vilã por trás dela, arma em punho.

    O palco virou arena.

    A música virou arma.

    A alma, guerra.

    O primeiro acorde soou como um trovão. Elena não olhou para as teclas. Não precisava. Os olhos estavam presos na imagem de Maya, ajoelhada no camarote com a arma apontada para a cabeça.

    A música que saiu do piano não era nenhuma peça conhecida. Era dela. Nasceu ali, naquele segundo, do medo e do amor e da raiva que queimava por dentro. Uma composição bruta, viva, violenta. Era mais grito do que melodia.

    O público, acostumado à elegância contida dos concertos, não sabia como reagir. Mas ninguém ousava se mover.

    Cada nota era um golpe. Cada acorde, um avanço. Elena atacava o piano como se pudesse atravessar a distância entre o palco e o camarote apenas com som. E, de algum modo, conseguia. Lídia começou a tremer.

    O som era brutal. Não havia pausa, não havia piedade. Os dedos de Elena batiam com tanta força nas teclas que as unhas começaram a rachar. A pele cedeu. O sangue escorreu. Primeiro tímido, depois em rios finos, tingindo as teclas brancas e pretas de um vermelho vivo. Mas ela continuava.

    Não era mais uma apresentação. Era um duelo.

    O público se levantou em uníssono, em choque, arrebatado por algo que não entendiam completamente. Alguns choravam. Outros gritavam. Mas Elena não ouvia nada. Ela tocava para Maya. Ela tocava para salvar.

    E então, algo aconteceu.

    Lídia, no camarote, começou a recuar um passo. Depois outro. A arma tremia, baixa. Os olhos, arregalados, tentavam resistir àquilo que sentia no corpo — um som que atravessava os ossos, como se fosse despedaçá-la de dentro pra fora.

    Ela gritou algo, mas a música engoliu as palavras.

    Maya, mesmo ajoelhada, olhou para Elena com um fio de esperança. E Elena, ainda tocando, assentiu levemente. Estavam ligadas. Como sempre estiveram.

    A peça chegou ao clímax. Elena cravou os dedos — feridos, ensanguentados — com toda a força. Um último acorde. Longo, tremendo, eterno. Quando ele ecoou no teatro, o mundo parecia ter parado de girar.

    Silêncio.

    A arma de Lídia caiu no chão com um som seco. Guardas se moveram. Gritos no fundo. Mas Elena não reagiu. Seus olhos se fecharam por um segundo, como se estivesse tentando manter Clara ali dentro, segura, num lugar onde a música ainda era proteção.

    Quando os olhos se abriram, ela viu Maya correndo em sua direção.

    Elena se levantou com dificuldade, os dedos ainda sangrando, o vestido agora manchado. Clara subiu ao palco e a abraçou, apertado, em meio aos aplausos mais intensos que aquele teatro já conheceu.

    A multidão gritava, mas elas não ouviam nada além do coração uma da outra.

    E atrás do piano, entre o sangue e as teclas, Elena deixou a última nota ecoar. Uma cicatriz sonora. Um fim e um começo.

  • A última pauta

    A última pauta

    O cheiro foi a primeira coisa que atingiu Lívia Santoro. Não o odor comum da morte — não era apenas carne em decomposição, era algo mais primitivo. Denso. Como se o ar fosse feito de sangue envelhecido e ossos moídos. Ela apertou o lenço contra o rosto e avançou entre os arbustos da reserva florestal interditada, guiada apenas por uma lanterna e seu instinto jornalístico.

    Não era a primeira vez que cobria um assassinato. Mas havia algo de errado naquele caso desde o início.

    O corpo havia sido encontrado pendurado a sete metros de altura, preso entre os galhos de uma figueira antiga, despido e virado do avesso. A pele, esticada e costurada como uma bandeira, tremulava com o vento. As vísceras estavam organizadas em padrões circulares no solo.

    Não havia sangue. Só silêncio.

    Lívia anotou os detalhes em seu bloco — ela sempre escrevia à mão, mesmo na era dos tablets. Era o peso da palavra escrita que a fazia continuar. E aquela cena, absurda, precisava ser documentada com precisão. A polícia tentou calar. A perícia não se pronunciava. O delegado usava termos como “vandalismo ritualístico”, mas nem ele acreditava nisso.

    Foi uma frase no relatório que a perseguiu desde o primeiro dia: “Marcas indicam que a vítima pode ter permanecido consciente durante o procedimento.”

    Três dias depois, outro corpo. E depois mais um. Cada um mais macabro que o anterior. Línguas costuradas no lugar dos olhos. Dentes enfileirados como teclas de máquina de escrever sobre pedras.

    Marcas na terra – não pegadas. Arranhões simétricos, como se algo com garras, mas dotado de inteligência, tivesse desenhado algo.

    A palavra VEJO apareceu repetida em diversos pontos. Em árvores, na carne das vítimas, nas paredes de concreto de uma construção abandonada. Não grafada – cravada.

    Lívia iniciou a investigação por conta própria, com câmera, gravador e um medo crescente. As evidências levavam à antiga usina de purificação da cidade, fechada após um incêndio misterioso em 1994.

    Lá, encontrou os arquivos que ninguém mencionava: registros de desaparecimentos de funcionários, todos os boletins internos arquivados com o carimbo Confidencial. Havia relatos de “sons vindos dos dutos” e “coisas rastejando pelas paredes”. Um dos documentos continha uma frase escrita com sangue seco:

    “Ele nasceu da fome das palavras. E agora nos escreve de volta.”

    Na noite do dia 21 de fevereiro, Lívia fez sua última entrada no diário de campo:

    “Estou indo até a zona cega da floresta. O sinal morre lá, mas deixarei registros em fita. Encontrei uma trilha de ossos — literalmente. Pedaços pequenos, humanos, organizados como se fossem frases em uma língua que não compreendo. Acho que ele fala. E acho que quer ser compreendido.”

    “Se eu não voltar… não deixem que apaguem isso.”

    Ela entrou na floresta às 23h04. O sinal foi perdido às 23h12.

    O que restou foi o áudio encontrado em seu gravador, deixado misteriosamente na recepção do jornal dois dias depois, embrulhado em um pano de carne costurada.

    No áudio, sua respiração está irregular. Há estalos, como carne viva se esticando. Sons úmidos. E então, sua voz, quase um sussurro:

    “Ele me observava o tempo todo. Ele entende o que somos. Ele nos lê. E agora, ele escreve com a gente.”

    “Ele pensa. Ele aprende. Ele está me escrevendo agora.”

    “[gargalhada distorcida] E eu sou só mais uma letra…”

    Depois, só silêncio. Longo. Vivo.

    Nenhum corpo foi encontrado. Nenhum sinal de luta. 

    Somente um recado, entalhado na porta da redação, com garras afiadas e simetria assustadora:

    “ELA ESCREVEU SOBRE MIM. AGORA, EU ESCREVO COM ELA.”

    Fim.

    Ou, como ela escreveria… início.

  • Banquete em Silêncio

    Banquete em Silêncio

    Na penumbra onde a razão apodrece,
    ele caminha — terno, preciso,
    com olhos que cortam mais fundo
    que o bisturi em sua mão de artífice.

    Cada palavra: um prato.
    Cada silêncio: um vinho tinto e espesso.
    Ele serve a morte com tal elegância
    que a culpa se curva, agradecendo.

    As vísceras, expostas como arte.
    O corpo, um templo profanado com estilo.
    Na carne do outro, ele lê confissões
    que nem a alma ousaria dizer em voz alta.

    Te observa — não como homem,
    mas como o lobo observa a floresta:
    já sabendo onde você irá sangrar,
    antes mesmo de você correr.

    O amor, para ele, tem gosto de fígado.
    A amizade, textura de pele fresca.
    E a compaixão…
    essa ele cozinha lentamente, até desaparecer.

    Quando sorrir, fuja.
    Quando calar, reze.
    Porque no fim, ele não mata por fome —
    mas por estética.

  • Reflexo do Abismo

    Reflexo do Abismo

    Ele me vê.
    Não como os outros —
    mas como a fera reconhece o espelho.

    Seus olhos me despem em silêncio,
    cirurgicamente.
    Não há toque, mas sangro.

    Caminhamos lado a lado
    em corredores onde a ética apodrece,
    e a moral é apenas mais um bisturi
    na mesa de dissecação.

    Ele fala com beleza,
    como se a morte fosse um idioma raro
    e eu… seu único tradutor.

    Sinto-o dentro da minha cabeça,
    como uma febre que pensa,
    como uma fome que fala.

    E o pior —
    não é o medo que me toma.
    É o desejo.

    Desejo de entender.
    Desejo de ceder.
    De ver o mundo como ele vê:
    um jardim de horrores,
    regado com intenções.

    Somos dois — ou talvez um só.
    Eu caço monstros…
    mas quando olho no espelho,
    vejo seu sorriso no meu reflexo.

  • Rubra Memória

    Rubra Memória

    Rompe a romã seu ventre na estação  

    como se o tempo abrisse a própria carne —  

    sangra em silêncio, lenta, no quintal  

    vida contida.  

    Tudo que é cheio um dia se derrama:  

    sonhos, segredos, lutos, esperanças.  

    Cada rubi que escorre em sua polpa  

    traz uma história.  

    Guardo romãs na taça da memória,  

    frutos que amei, perdi, depois plantei.  

    Bebo o sumo que resta em cada ausência —  

    farta lembrança.

  • Cores verdadeiras

    Cores verdadeiras

    Vou ser bem sincera, não dá mais pra esconder,  

    Ela usou demais da minha bondade, sem perceber.  

    Foi na minha casa, com um sorriso a enganar,  

    Pediu minhas coisas, e eu deixei sem questionar.

    Emprestei meu tempo, minha energia, sem medir,  

    Mas o que recebi? Só silêncio a me consumir.  

    Dei o que tinha, sem pensar no que podia faltar,  

    Agora vejo que eu me deixei anular.

    Ela tomou tanto de mim, sem olhar pra trás,  

    E eu, perdida na confiança, não via os sinais.  

    Minha bondade, que parecia sem fim,  

    Foi sendo consumida, até que restou só pra mim.

    Hoje eu vejo claro, a lição que ficou,  

    A amizade também precisa de amor.  

    Vou ser mais cuidadosa, com o que me resta,  

    Porque minha bondade merece ser uma festa.

  • O Voo das Borboletas

    O Voo das Borboletas

    Em tempos antigos, as borboletas eram vistas com receio, um reflexo daquilo que era desconhecido, ou mesmo do que se temia. Elas nasciam pequenas, quase invisíveis, e tinham o hábito de se esconder nas sombras até o momento de sua metamorfose. Quando emergiam, já haviam se transformado em algo novo, belo e imprevisível. Uma vez voando livremente, as borboletas nos lembravam da fragilidade da vida e da capacidade de transformação. 

    Era assim que eu via os pais de antigamente, aqueles que, por anos a fio, olharam para a homossexualidade com estranhamento, com medo e, em muitos casos, com uma reprovação velada. A ideia de um filho ou filha ser diferente, de ser um traço em uma pintura que os padrões não conseguiam compreender, causava-lhes um desconforto profundo. Eles a viam como uma mutação, algo a ser corrigido, algo de que se afastar, como se a identidade de um filho fosse um reflexo de seus próprios erros.

    Era uma época em que o mundo estava fechado em casulos, esperando uma transformação que ninguém entendia completamente. Os pais, envolvidos pela rigidez das suas próprias certezas, acreditavam que o amor deveria seguir uma linha reta, sem desvios, como o voo reto de uma ave. Mas, como as borboletas, as coisas eram muito mais complicadas, muito mais bonitas.

    Ao longo dos anos, no entanto, algo começou a mudar. Não foi uma mudança abrupta, nem um evento que pudesse ser registrado como uma grande revolução, mas sim uma transformação lenta, quase invisível, como a pupação de uma borboleta. A vida continuou, o tempo passou e, ao mesmo tempo em que as borboletas evoluíam no ciclo da natureza, as pessoas também evoluíam, mesmo sem perceber.

    As primeiras evidências dessa transformação vinham nas palavras tímidas de filhos que, até então, haviam se escondido, como as pequenas lagartas, e que agora se mostravam com as asas abertas. “Eu sou quem sou”, diziam, com os olhos bravos e a alma esperançosamente corajosa. 

    Mas, e os pais? O que fazer com aquelas asas coloridas que apareciam diante de seus olhos? Inicialmente, muitos reagiram com desconfiança, como se o voo daquela borboleta fosse algo que ameaçasse a paz do jardim. Havia quem ainda não soubesse como lidar com as cores vibrantes, com a liberdade que se manifestava na expressão do filho.

    No entanto, o que o tempo fez com muitos desses pais foi algo belo, talvez até mais bonito que a própria transformação das borboletas. Eles também passaram por suas metamorfoses. Não de maneira imediata, mas com a persistência do amor, com a insistência da vida que não permite que fiquemos presos em nossos casulos. O que antes parecia ser um erro, um desvio do curso natural das coisas, agora começava a se tornar parte da beleza da vida. Aos poucos, o amor deles se expandia, como asas batendo contra o vento.

    Eles passaram a perceber que, ao contrário do que pensavam, o amor não precisa seguir uma linha reta. O amor pode ser tortuoso, surpreendente, e é capaz de mudar o mundo de formas que antes pareciam impossíveis. E, assim como as borboletas, que ganham um novo olhar quando começam a voar, os pais também começaram a entender que a beleza da vida está em sua diversidade, na coragem de sermos nós mesmos, sem medo do que a transformação pode trazer.

    Hoje, os filhos que antes temiam o julgamento, encontram pais que celebram suas cores, suas formas, e suas escolhas. As borboletas, com suas asas frágeis, mas poderosas, ensinaram que a evolução, tanto no mundo natural quanto no mundo humano, é possível e, muitas vezes, bela.

    E, talvez, seja esse o maior presente da metamorfose: saber que, mesmo depois de tantas camadas, o amor sempre pode florescer.

  • A Última Linha

    A Última Linha

    Clara e Lívia nunca souberam que as palavras que traziam à tona a verdade e o caos nas suas reportagens também seriam as que cavariam um abismo entre elas, uma linha tênue que separa o amor da dor.

    Ambas jornalistas, ambas mulheres, ambas devotas da busca pela verdade, mas com uma diferença irreparável: Clara, a que desvelava os fatos com precisão clínica, implacável, enquanto Lívia caçava as tragédias, as tragédias invisíveis, que se escondem no âmago da dor humana, com uma sensibilidade que se transbordava em poesia. Elas se conheciam como se conhecem os ecos de um lugar que nunca se esquece. Durante anos, as trocas de olhares disfarçados e os silêncios compartilhados foram a base de uma amizade que nunca ousaram questionar. Mas, aos poucos, o que antes era parceria começou a ser algo mais — algo perigoso, inquietante, insustentável.

    O escritório delas era pequeno, abafado, uma cápsula onde o peso das matérias urgentes se empilhava ao lado de prazos que nunca se cumpriam. Ali, no caos do jornalismo, havia uma quietude entre elas. Nos intervalos, quando se cruzavam nas pequenas pausas para um café ou uma refeição rápida, as conversas mudaram. De questões políticas e tópicos profissionais, passaram a falar de si mesmas, de suas fragilidades, dos pedaços de si que preferiam esconder. As risadas contidas de Lívia começaram a carregar um timbre estranho, um calor, algo que Clara não soubera identificar até então. E Lívia, que sempre via o sofrimento alheio através das palavras, começou a escrever cartas para Clara, cartas que nunca seriam enviadas, mas que falavam mais de sua alma do que qualquer matéria que já escrevera.

    Ambas estavam marcadas por histórias difíceis, amores perdidos, feridas antigas que ainda sangravam. Mas o jornalismo, que as unia, acabou por ser o espaço que as afastava. Clara sentia cada vez mais que a dor de amar Lívia pesava mais que a leveza de sua presença. E Lívia, mergulhada em suas próprias sombras, parecia temer o encontro com sua verdade, como se o que estava acontecendo entre elas fosse uma tempestade que elas não poderiam controlar.

    O fim se desenhou em uma tarde que parecia igual a tantas outras, mas que, com o peso do destino, tornou-se irrevogável. Elas estavam juntas, no escritório, redigindo uma matéria sobre mulheres desaparecidas. O texto estava imerso em uma dor pungente, como se a própria tragédia dos desaparecimentos estivesse se infiltrando em suas almas. Foi ali, naquele momento de melancolia, que Clara olhou para Lívia não como colega, mas como mulher. O que antes era uma amizade profunda, agora se tornava um abismo de desejo não dito, de um amor que não podia ser expresso. Clara se aproximou, hesitante, como se fosse uma prece que não soubesse se poderia ser dita. Lívia, com o olhar distante, os lábios entreabertos, parecia não perceber que sua própria resistência era a dor de um amor não correspondido.

    “Eu… eu não posso,” disse Lívia, como se palavras fossem facas afiadas, cortando o espaço entre elas. “Não podemos nos perder no que não podemos controlar.”

    Aquelas palavras, baixas e pesadas, se cravaram na alma de Clara como um golpe, mas ela já sabia. Sabia que não havia mais espaço entre elas. Sabia que o que sentiam não tinha mais lugar no mundo que habitavam, que aquele amor não poderia ser contado nas páginas de um jornal, não poderia ser feito de palavras que se cruzam e se diluem em uma reportagem qualquer.

    Lívia levantou-se, pegou sua bolsa, e se afastou. Clara permaneceu ali, com os dedos ainda tocando a borda da mesa, como se tentasse segurar algo que se desintegrava entre suas mãos. Não houve mais palavras. Não houve mais gestos. O que restou foi o silêncio de uma história não escrita, de um amor que não teve chance de existir, de uma última linha que jamais seria traçada.

    Dias depois, Clara entregou sua matéria. As palavras estavam ali, mas faltava algo. Havia um buraco vazio entre as frases, como se a dor de um amor não correspondido tivesse se infiltrado em cada letra. Ela sabia, com uma certeza amarga, que aquelas palavras não podiam descrever o que havia se perdido entre ela e Lívia. 

    A tragédia não estava no amor que nunca se concretizou, mas no silêncio que tomou o lugar das palavras. Na última linha, que nunca seria escrita, que talvez fosse melhor assim. Porque, no fim, algumas histórias, as mais trágicas, são aquelas que não podem ser contadas.