• Criada para ser forte, nunca amada

    Eu sou a filha errada
    no lugar certo.

    Com o mundo, sou cuidado.
    Com vocês, sou falha.

    Vocês me chamam de ingrata
    como se eu nunca tivesse dado nada.
    Mas eu dei silêncio,
    dei maturidade antes da hora,
    dei noites engolindo o choro
    pra não dar trabalho.

    Vocês dizem que eu desrespeito
    quando eu só tento respirar.
    Chamam de interesse
    o meu cansaço de implorar
    por um pouco de amor.

    Cada palavra de vocês
    entra em mim como faca
    e fica.
    Não sangra pra fora,
    apodrece por dentro.

    Eu olho pra vocês
    esperando acolhimento
    e recebo sentença.
    Nunca abraço.
    Nunca desculpa.
    Nunca “você é suficiente”.

    Eu nunca machuquei ninguém.
    Mas vocês me machucam todos os dias
    e nem percebem.
    Ou percebem
    e não se importam.

    Eu só queria pais.
    Não juízes.
    Não carrascos emocionais.

    Vocês dizem que amor é base,
    mas comigo ele vem com condição:
    seja menos,
    cale mais,
    não sinta.

    Mesmo assim,
    eu ainda amo vocês.
    E isso é o que mais dói.

    Porque amar quem te fere
    é aprender a se abandonar

  • Fúria herdada e carne colonizada em Aicha

    Uma leitura que transforma mito, colonização e fúria feminina em linguagem de resistência, onde o corpo se torna memória e a raiva, herança histórica

    Há livros que se deixam ler como histórias. Aicha não é um deles. Aicha se impõe como uma experiência. Ler esse romance é caminhar por uma memória sitiada, onde mito, corpo e história se entrelaçam de forma inseparável. A narrativa não pede empatia fácil nem oferece conforto. Ela exige presença.

    Desde o início, fica evidente que a história de Aicha é moldada por duas forças indissociáveis. Um mito marroquino ancestral, feminino e furioso, e a violência concreta da colonização portuguesa no Marrocos. O texto não separa essas dimensões. O mito não aparece como fantasia escapista, mas como linguagem possível para expressar aquilo que a história oficial não soube ou não quis nomear. Quando a violência é contínua, racionalizá-la deixa de ser suficiente. É preciso invocá-la.

    A colonização portuguesa é apresentada como um sistema de controle que se infiltra em tudo. No alimento que falta, na água racionada, nos corpos constantemente vigiados, na naturalização da morte e da humilhação. Aicha cresce em um espaço onde a desumanização é política cotidiana. Não há neutralidade nesse mundo. Sobreviver já é um gesto de resistência.

    É nesse cenário que a raiva de Aicha ganha centralidade. Este é um livro profundamente atravessado pela female rage, mas não por uma raiva estilizada ou pedagógica. A fúria aqui é acumulativa, antiga, transmitida como herança. Ela nasce da perda repetida, do luto negado, do corpo tratado como território conquistado. A narrativa se recusa a suavizar essa raiva para torná-la aceitável. Aicha não é construída para ser compreendida com facilidade. Ela é construída para existir por inteiro.

    O mito que habita a protagonista funciona como espelho e amplificação. Ele dá forma ao que já estava ali. A violência não cria o monstro. Ela o convoca. Quando a presença mítica emerge, o romance desmonta a lógica colonial que chama de barbárie tudo aquilo que escapa ao seu controle. O sobrenatural não é o oposto da razão. Ele é resposta.

    A relação entre corpo e terra atravessa toda a narrativa. O corpo feminino de Aicha é constantemente atravessado por olhares, ameaças e tentativas de dominação. Ele se torna arquivo vivo da ocupação. Cada ferida carrega memória. Cada explosão de raiva carrega história. O texto compreende que direitos humanos não são apenas princípios abstratos, mas a possibilidade concreta de enterrar seus mortos, de sentir raiva sem ser exterminada por isso, de existir sem pedir permissão.

    O luto em Aicha é coletivo e político. Mortes não são apenas perdas pessoais, mas ferramentas de intimidação. Corpos queimados, apagados, deixados sem ritual. A narrativa entende que impedir o luto é uma forma de violência extrema, pois retira até mesmo o direito à memória. A raiva de Aicha nasce também desse acúmulo de silêncios forçados.

    A escrita é sensorial, densa, por vezes sufocante. Fome, calor, sangue, exaustão e medo atravessam cada página. Há uma claustrofobia constante, como se o próprio texto estivesse sob cerco. Mesmo nos momentos de quietude, algo pulsa, prestes a romper. A linguagem acompanha esse estado. Nada é estável. Nada está seguro.

    O romance não oferece redenção fácil. Não há promessas de justiça proporcional nem finais pacificadores. O mito não vem para salvar, mas para lembrar que quando a humanidade é negada por tempo suficiente, o que surge no lugar pode ser feroz. E essa ferocidade não precisa ser desculpada para ser legítima.

    Aicha é um livro sobre memória que se recusa a ser domesticada. Sobre a violência colonial que insiste em sobreviver nos corpos. Sobre a raiva feminina como resposta histórica, não como falha moral. Ao terminar a leitura, o que permanece não é alívio, mas inquietação. Porque Aicha não quer ser superada. Ela quer ser lembrada.

  • Aicha

    Aicha

    Chamaram-na tentação,
    porque o fogo em seus olhos seduzia o medo.
    Chamaram-na monstro,
    porque o ódio aprendeu a rezar dentro de seu peito.
    Mas ela sabia o próprio nome:
    guerreira.

    Aicha nasceu do pó e do sangue,
    do grito das mães,
    do silêncio dos mortos sem sepultura.
    Sob a bandeira estrangeira,
    aprendeu cedo que a fome também é uma arma
    e que o aço não corta tanto quanto a humilhação.

    Em sua pele dorme algo antigo,
    um mito esquecido pelas dunas,
    uma deusa ferida que desperta
    quando o mundo insiste em quebrar seus ossos.
    Ela sente,
    um calor que cresce,
    uma fúria que canta,
    um chamado que pede vingança em voz alta.

    Rachid é o nome que a ancora.
    Em seus braços, a tempestade hesita.
    Ele beija o lugar exato
    onde a guerra ameaça transbordar,
    e por um instante
    Aicha lembra que também é feita de amor.

    Mas não há paz sob correntes.
    Quando o império aperta o punho,
    a deusa se ergue.
    Dentes de fogo,
    mãos de justiça,
    ela caminha entre ruínas
    como promessa e condenação.

    Que tremam os que queimaram sua terra.
    Que ouçam os gritos que semearam.
    Pois Aicha não luta apenas por si,
    ela é a ira de um povo,
    o mito que retorna,
    a liberdade aprendendo a rugir.

  • Orlando, ou o nome que o amor inventa

    Virginia escreve com mãos de neblina,
    Vita caminha com passos de hera antiga,
    duas mulheres num tempo que não as queria,
    mas a palavra queria.

    Amaram-se em cartas longas como mares,
    em tardes roubadas à moral do mundo,
    em beijos que o papel guardou melhor que a carne,
    pois o papel não acusa.

    Então Virginia, que amava transformações,
    fez do amor um artifício de eternidade:
    mudou o sexo, mudou o nome,
    para não perder Vita ao tempo.

    Chamou-a Orlando,
    homem por fora, mulher por dentro,
    século após século intacta,
    como o desejo que não envelhece.

    Orlando atravessa eras
    como Vita atravessava Virginia:
    com insolência, beleza e liberdade,
    rindo das fronteiras impostas.

    E assim o amor sáfico sobreviveu
    disfarçado de romance fantástico,
    porque às vezes, para dizer a verdade,
    é preciso inventar um mundo.

    Virginia sabia:
    amar uma mulher era já um ato literário,
    mas escrever esse amor
    foi torná-lo imortal.

  • Tea & Alchemy: a alquimia das sombras e dos afetos

    Entre folhas de chá e torres de granito, uma história sobre transformar o invisível em verdade

    Tea & Alchemy é um daqueles romances que parecem simples na superfície, um mistério gótico, um romance improvável, uma vila cheia de superstições, mas que, ao se abrir, revelam camadas e mais camadas de simbolismo, textura emocional e atmosferas cuidadosamente construídas. Sharon Lynn Fisher não escreve apenas uma narrativa ambientada na Cornwall de 1854; ela ergue um mundo onde cada elemento, uma xícara de chá, uma torre de granito, um frasco alquímico, funciona como metáfora do que seus personagens mais temem e mais desejam.

    Mina Penrose, leitora de folhas de chá e alma marcada por perdas, vive entre o conforto morno do tearoom The Magpie e o peso silencioso de seu próprio passado. A habilidade recém-desperta de decifrar sinais nas sobras da bebida não serve apenas como artifício mágico: é sua forma de enxergar aquilo que a vida, teimosa, tenta esconder. As folhas de chá se tornam uma espécie de poesia acidental, uma caligrafia do destino que surge no fundo das xícaras e que Fisher utiliza como metáfora para o processo de Mina aprender a ver, os outros, o mundo, e a si mesma, com nitidez renovada. É curioso como, no livro, a leitura do chá funciona como contraponto ao caos: em vez de prever o futuro, ela parece revelar o que sempre esteve ali, à espera de coragem.

    Do outro lado do moorland, cercado pela névoa e pelas lendas locais, ergue-se Harker Tregarrick, o alquimista recluso cuja torre de granito funciona quase como extensão de sua alma: resistente por fora, fragmentada por dentro. Fisher o constrói como alguém que transformou a própria vida em um experimento, mas que teme justamente aquilo que tenta dominar, a mudança. Se a alquimia tradicional buscava transmutar metais inferiores em ouro, Harker parece preso a uma versão emocional desse processo: querer purificar o passado, sem aceitar que certas dores não se dissolvem em solventes ou fórmulas. A relação entre ele e Mina nasce dessa fricção: ela lê o invisível, ele manipula o visível; ela se abre ao imprevisto, ele tenta controlar cada reação. É natural que, quando se encontram, algo reaja, primeiro com cautela, depois com intensidade.

    A vila de Roche, com seus rumores e moralidades rígidas, paira sobre o enredo como uma nuvem de reagentes instáveis. Não é apenas o cenário, mas um coletivo que deseja explicações rápidas, culpados prontos, confortos simples. O assassinato que Mina encontra na charneca funciona como um catalisador narrativo: aquilo que estava em equilíbrio, ainda que tênue, se agita, muda de cor, ameaça transbordar. É nesse momento que Fisher demonstra domínio pleno do gênero: o mistério não serve apenas para mover a trama, mas para pressionar seus personagens a confrontarem as próprias verdades ocultas.

    Entre neblinas, experimentos e xícaras servidas, Tea & Alchemy revela sua ambição maior: ser um romance sobre transmutação emocional. Fisher sugere, página após página, que a verdadeira alquimia não está no laboratório de Harker, mas no encontro desses dois seres que carregam cicatrizes diferentes, mas igualmente profundas. A cada novo capítulo, fica mais claro que a transformação mais importante não é a que ocorre no laboratório, mas a que se desenrola dentro deles: a lenta conversão de medo em confiança, de isolamento em presença, de silêncio em partilha.

    A prosa de Fisher, elegante e atmosférica, conduz o leitor por esse processo quase ritualístico com uma delicadeza que raramente se encontra no gênero. Nada é excessivo; tudo é simbólico. A neblina que oculta é a mesma que protege. A torre que afasta é a que abriga. As folhas que parecem caos são a verdade em forma bruta. E, ao fim, quando as revelações enfim se decantam, o livro deixa um resíduo luminoso, como se algo tivesse sido purificado, ou talvez, finalmente compreendido.

    Tea & Alchemy é uma história para quem aprecia mistério, romance e fantasia histórica, mas também para quem busca narrativas que respeitam o tempo da transformação humana. Um romance que não apressa suas reações, que permite que o leitor observe cada mudança de cor, cada liberação de calor, cada centelha nascente entre dois personagens destinados não pelo acaso, mas pela afinidade secreta de suas dores.

    No fundo, Fisher escreve sobre a mais antiga das alquimias: a capacidade de duas pessoas se encontrarem e, nesse encontro, descobrirem que não precisam mais carregar tudo sozinhas.

  • O amor mastiga devagar

    O amor mastiga devagar

    Mama diz que família é isso:
    mãos que deixam marcas
    e dizem que é carinho,
    “prova de que ainda nos amamos”,
    como ouvi na mesa, entre migalhas de torta
    e olhos que me vigiavam como iscas prontas

    Eu cresci aprendendo
    que o prato limpo vale mais que a pele limpa,
    e que nada aquece a casa
    como o cheiro de algo sendo assado,
    fosse coelho, fosse kit,
    fosse a culpa de alguém que devia saber melhor

    Eden contava histórias
    de mulheres escondidas em tocas,
    fazendo farinha de ossos
    e servindo a seus semelhantes
    tortas feitas da própria família

    Eu ouvia em silêncio,
    sabendo que algumas histórias
    cheiram forte demais para ser só ficção.

    Mama sorria.
    O sorriso dela sempre foi um pedido,
    uma posse,
    um tipo de fome.

    Ela olhava para mim
    como quem decide qual parte cozinha primeiro,
    qual parte dói mais ao arrancar.
    Mas chamava isso de proteção.
    Chamava de amor.

    Eu era pequena,
    mas já sabia:
    a gente aqui aprende cedo
    que amar é dar-se como carne.
    É deixar que alguém nos moa aos poucos
    até virar pó macio,
    como a mulher-coelho fazia com seus mortos.

    E quando Mama dizia meu nome,
    quando dizia Margot naquela voz mansa
    que escorria como mel venenoso,
    uma parte de mim entendia
    que eu também era ingrediente.

    Eu, que ajudei a caçar os kits no escuro,
    que vi unhas roxas nos dedos de alguém
    que nunca saiu de nossa casa,
    eu, que aprendi que entrar aqui
    é nunca mais sair inteira.

    Mama me amava.
    De um jeito que devorava.
    De um jeito que fazia da minha vida
    uma refeição longa.

    E eu a amava de volta,
    porque amar é o único modo
    de sobreviver sendo comida.

    No fim, percebi:
    ela nunca quis me matar.
    Apenas me mastigar
    o suficiente para que eu ficasse
    para sempre presa entre os dentes dela.

    Porque, nesta casa,
    o amor não se diz.
    O amor se come.

  • Autismo, horror e a devolução da humanidade: a poética brutal de Hazelthorn

    Uma leitura que explora como C. G. Drews transforma o corpo, o trauma e a neurodivergência em linguagem estética e revolta poética

    Há livros que contamos ter lido, e há livros que nos leem de volta. Hazelthorn, de C. G. Drews, pertence a essa segunda categoria. Ele não se contenta em ser folheado; ele invade, consome e se entranha nos espaços mais escuros de quem ousa abri-lo. E para mim, uma leitora autista acostumada a viver em silêncio e a sentir demais, Hazelthorn foi como ser olhada, finalmente, com olhos que não desviam.

    Evander, o protagonista, vive isolado na mansão Hazelton, um labirinto de corredores decadentes, jardins engolidos por espinhos e memórias sufocadas. A primeira frase já nos prende pela garganta: “He knows what it is to be buried alive.” Essa imagem não é apenas literal, ela é simbólica do modo como Evander vive: enterrado em si mesmo, enclausurado por adultos que o tratam como uma doença, não como uma pessoa.

    Como leitora autista, a sensação de estar trancada em um corpo e em um mundo que não entende sua forma de sentir me atingiu com brutalidade. O modo como Drews descreve o tédio de Evander, o peso das repetições, o desconforto sensorial, o cheiro, o som, a textura do ambiente, é de uma precisão quase dolorosa. Há uma cena em que ele descreve o som da casa como “um animal respirando pelas paredes”, e eu me vi ali, presa também, sentindo o mundo respirar alto demais.

    Drews transforma a mansão num organismo vivo, e essa simbiose entre espaço e mente é um dos pontos mais brilhantes do romance. Hazelthorn não é apenas cenário: é o corpo coletivo da neurodivergência, da culpa, da raiva reprimida. O horror não vem de fora; ele floresce das rachaduras da alma.

    Quando Laurie retorna, o menino dourado que tentou matá-lo anos antes, o livro se parte em dois tons: o gótico e o visceral. É impossível ler essa relação sem sentir o peso ambíguo entre fascínio e repulsa. Evander odeia Laurie, mas está obcecado por ele. Laurie é a cicatriz e a lembrança da infância que Evander nunca pôde ter. Ele representa o trauma que continua respirando, mesmo quando o corpo tenta esquecê-lo.

    Há algo de profundamente real no modo como Drews escreve o trauma: ele não segue lógica, ele é circular. Evander oscila entre raiva, medo e desejo com a mesma intensidade com que alguém neurodivergente sente o mundo, tudo ao mesmo tempo, sem filtros. A narrativa nos força a encarar que o amor e o ódio, quando nascem do abuso e da violência, se enredam como raízes impossíveis de separar.

    Essa relação tóxica é, na verdade, o espelho de uma estrutura social que diz amar enquanto controla, que protege enquanto aprisiona. O senhor Lennox-Hall, o guardião “benevolente”, é o ápice disso, um homem que confunde cuidado com posse. Sua morte, numa cena grotescamente bela e orgânica (com folhas brotando de sua garganta), é o clímax da corrupção: o controle que apodrece de dentro para fora.

    Há algo raríssimo na literatura contemporânea: personagens autistas escritos com raiva legítima. Evander é raivoso, não porque é cruel, mas porque é humano. E Drews, também autista, entende que a raiva é parte da sobrevivência quando o mundo insiste em nos podar. O author’s note  do livro já anuncia: este é um livro sobre “autistic and queer rage”. E isso transborda em cada página. A raiva de Evander é o oposto da violência gratuita, é uma tentativa de provar que ele existe. Ser autista e sensível não é sinônimo de docilidade; é ser forçado a engolir o próprio grito por anos, até que o corpo adoeça dele.

    A forma como Drews escreve essa experiência é crua, mas também profundamente poética. Há um ritmo de respiração na escrita, uma oscilação entre o claustro e o êxtase.
    O texto imita a mente autista em estado de hiperfoco e sobrecarga, frases longas, repetitivas, quase musicais, seguidas de silêncios abruptos, fragmentados, como se o mundo se partisse entre pensamentos.

    Ler Hazelthorn é sentir o autismo não como diagnóstico, mas como linguagem. É ver a neurodivergência transfigurada em estética, não em metáfora médica. E para mim, isso foi um alívio e uma revolução.

    A beleza do livro está em como o gótico aqui não serve apenas para assustar, mas para libertar. O sangue, o apodrecimento, o corpo em mutação, tudo é símbolo da transformação de Evander. O livro entende que o horror é, às vezes, o único gênero capaz de expressar o que é ser uma pessoa marginalizada: o mundo nos trata como monstros, então nos tornamos monstros para sobreviver.

    A natureza é presença constante: o jardim devorando a casa, as raízes crescendo sob a pele, o sangue confundido com seiva. Essa fusão entre o humano e o vegetal é de uma potência simbólica rara, uma metáfora daquilo que é reprimido voltando à superfície, exigindo espaço, exigindo ar. Evander não se cura: ele floresce. Mas é uma floração carnívora, feita de espinhos e de verdade.

    Houve momentos em que precisei fechar o livro e respirar. Hazelthorn é visceral em um sentido quase físico: ele te faz sentir fome, febre e medo. A prosa de Drews é úmida, orgânica, cada parágrafo parece escorrer.

    Mas o que mais me marcou foi o modo como o livro traduz a sensação de ser “demais”, de existir em um corpo que nunca cabe no mundo. Quando Evander mastiga terra, por fome e desespero, senti um nó na garganta. Aquilo não é loucura, é linguagem. É o corpo falando quando as palavras são negadas.

    Drews entende que monstros são o que resta quando a humanidade falha em compreender a diferença. E talvez o maior gesto de amor do livro seja este: permitir que um personagem autista, queer e traumatizado seja monstruoso, e ainda assim digno de empatia, de desejo e de redenção.

    No final, entendi o subtítulo que ecoa desde a dedicatória: “What is love if not devouring”. Hazelthorn é uma história sobre amor, mas não o tipo que consola. É um amor que devora, que corrói, que transforma. É sobre o desejo de ser livre e o medo de não saber o que fazer com essa liberdade quando ela finalmente chega.

    Terminei o livro tremendo, não de medo, mas de reconhecimento. Porque o que C. G. Drews faz aqui é mais do que narrar um horror gótico: é reivindicar o direito de pessoas autistas e queer sentirem raiva, fome, desejo e poder. É uma história sobre monstros que, no fundo, só queriam ser deixados em paz para florescer.E eu, leitora autista que sempre se sentiu errada, barulhenta demais, sensível demais,  amei Hazelthorn, porque Evander não pediu desculpas por ser intenso. Nem eu preciso mais.

  • Ela cresce em mim

    Ela cresce em mim

    Dizem que a floresta leva o que ama.
    Eu não acreditei, até sentir tuas mãos
    afundando em meu peito como quem planta algo.

    Tuas palavras eram raízes, e eu, solo.
    Aceitei teu toque como quem aceita a febre:
    sabendo que cura e destrói da mesma forma.

    Agora, quando respiro, ouço folhas.
    Quando durmo, sonho com dentes sob a terra.
    A floresta te imitou,
    ou foste tu que a ensinaste a amar devorando?

    Te vi dançando entre os troncos, nua de luz,
    com o coração batendo fora do corpo,
    pendurado por vinhas,
    um farol de carne chamando meu nome.

    Eu corri.
    Mas o chão era tua voz.
    E o vento, teu riso,
    docemente cruel, como se o amor tivesse dentes.

    Hoje acordo coberta de pétalas escuras,
    meu sangue pulsa verde.
    Teu nome cresce em minhas costelas,
    em letras de seiva e espinho.

    E às vezes penso:
    se eu abrir o peito,
    talvez encontre teu rosto ali dentro,
    sorrindo,
    enraizado no que restou de mim.

  • Repetição

    Repetição

    Caminho em círculos,
    sempre volto ao mesmo ponto.
    A amizade é um espelho rachado
    que devolve a mesma imagem,
    mesmo quando tento fugir.

    Sorrisos cansados,
    promessas que não duram,
    gestos que escondem a queda.
    O afeto se veste de cuidado,
    mas por baixo é corrente e faca.

    Aprendemos a cair juntos,
    a levantar só para repetir.
    É dança sem música,
    é pacto de silêncio,
    é laço que aperta,
    nunca liberta.

    E quando penso em romper,
    já é tarde:
    a roda gira outra vez,
    e eu retorno,
    como se fosse escolha.

  • Cicatriz em silêncio

    Cicatriz em silêncio

    Acordei tropeçando no tempo,
    antes que o dia pudesse nascer em mim.
    Vieram pedras travestidas de palavras,
    cada sílaba um corte,
    cada frase, um fardo impossível de sustentar.

    No almoço, não havia pão,
    mas culpas que nunca foram minhas.
    Apontaram-me como doença,
    quando sou apenas ferida exposta,
    implorando por cuidado,
    por um gesto breve de presença.

    E agora,
    quando a semana prometia sorrisos,
    só ecoa a dor.
    No calendário, uma vela se prepara para arder,
    mas em mim permanece a sombra do não-dito,
    do amor que não chegou,
    do abraço que faltou.

    Ainda assim, guardo um segredo silencioso:
    meu coração, mesmo em carne viva,
    insiste em florescer.

    E talvez seja isso
    a maior das coragens:
    renascer,
    mesmo entre as cinzas
    do que tentou me consumir.