• Autismo, horror e a devolução da humanidade: a poética brutal de Hazelthorn

    Uma leitura que explora como C. G. Drews transforma o corpo, o trauma e a neurodivergência em linguagem estética e revolta poética

    Há livros que contamos ter lido, e há livros que nos leem de volta. Hazelthorn, de C. G. Drews, pertence a essa segunda categoria. Ele não se contenta em ser folheado; ele invade, consome e se entranha nos espaços mais escuros de quem ousa abri-lo. E para mim, uma leitora autista acostumada a viver em silêncio e a sentir demais, Hazelthorn foi como ser olhada, finalmente, com olhos que não desviam.

    Evander, o protagonista, vive isolado na mansão Hazelton, um labirinto de corredores decadentes, jardins engolidos por espinhos e memórias sufocadas. A primeira frase já nos prende pela garganta: “He knows what it is to be buried alive.” Essa imagem não é apenas literal, ela é simbólica do modo como Evander vive: enterrado em si mesmo, enclausurado por adultos que o tratam como uma doença, não como uma pessoa.

    Como leitora autista, a sensação de estar trancada em um corpo e em um mundo que não entende sua forma de sentir me atingiu com brutalidade. O modo como Drews descreve o tédio de Evander, o peso das repetições, o desconforto sensorial, o cheiro, o som, a textura do ambiente, é de uma precisão quase dolorosa. Há uma cena em que ele descreve o som da casa como “um animal respirando pelas paredes”, e eu me vi ali, presa também, sentindo o mundo respirar alto demais.

    Drews transforma a mansão num organismo vivo, e essa simbiose entre espaço e mente é um dos pontos mais brilhantes do romance. Hazelthorn não é apenas cenário: é o corpo coletivo da neurodivergência, da culpa, da raiva reprimida. O horror não vem de fora; ele floresce das rachaduras da alma.

    Quando Laurie retorna, o menino dourado que tentou matá-lo anos antes, o livro se parte em dois tons: o gótico e o visceral. É impossível ler essa relação sem sentir o peso ambíguo entre fascínio e repulsa. Evander odeia Laurie, mas está obcecado por ele. Laurie é a cicatriz e a lembrança da infância que Evander nunca pôde ter. Ele representa o trauma que continua respirando, mesmo quando o corpo tenta esquecê-lo.

    Há algo de profundamente real no modo como Drews escreve o trauma: ele não segue lógica, ele é circular. Evander oscila entre raiva, medo e desejo com a mesma intensidade com que alguém neurodivergente sente o mundo, tudo ao mesmo tempo, sem filtros. A narrativa nos força a encarar que o amor e o ódio, quando nascem do abuso e da violência, se enredam como raízes impossíveis de separar.

    Essa relação tóxica é, na verdade, o espelho de uma estrutura social que diz amar enquanto controla, que protege enquanto aprisiona. O senhor Lennox-Hall, o guardião “benevolente”, é o ápice disso, um homem que confunde cuidado com posse. Sua morte, numa cena grotescamente bela e orgânica (com folhas brotando de sua garganta), é o clímax da corrupção: o controle que apodrece de dentro para fora.

    Há algo raríssimo na literatura contemporânea: personagens autistas escritos com raiva legítima. Evander é raivoso, não porque é cruel, mas porque é humano. E Drews, também autista, entende que a raiva é parte da sobrevivência quando o mundo insiste em nos podar. O author’s note  do livro já anuncia: este é um livro sobre “autistic and queer rage”. E isso transborda em cada página. A raiva de Evander é o oposto da violência gratuita, é uma tentativa de provar que ele existe. Ser autista e sensível não é sinônimo de docilidade; é ser forçado a engolir o próprio grito por anos, até que o corpo adoeça dele.

    A forma como Drews escreve essa experiência é crua, mas também profundamente poética. Há um ritmo de respiração na escrita, uma oscilação entre o claustro e o êxtase.
    O texto imita a mente autista em estado de hiperfoco e sobrecarga, frases longas, repetitivas, quase musicais, seguidas de silêncios abruptos, fragmentados, como se o mundo se partisse entre pensamentos.

    Ler Hazelthorn é sentir o autismo não como diagnóstico, mas como linguagem. É ver a neurodivergência transfigurada em estética, não em metáfora médica. E para mim, isso foi um alívio e uma revolução.

    A beleza do livro está em como o gótico aqui não serve apenas para assustar, mas para libertar. O sangue, o apodrecimento, o corpo em mutação, tudo é símbolo da transformação de Evander. O livro entende que o horror é, às vezes, o único gênero capaz de expressar o que é ser uma pessoa marginalizada: o mundo nos trata como monstros, então nos tornamos monstros para sobreviver.

    A natureza é presença constante: o jardim devorando a casa, as raízes crescendo sob a pele, o sangue confundido com seiva. Essa fusão entre o humano e o vegetal é de uma potência simbólica rara, uma metáfora daquilo que é reprimido voltando à superfície, exigindo espaço, exigindo ar. Evander não se cura: ele floresce. Mas é uma floração carnívora, feita de espinhos e de verdade.

    Houve momentos em que precisei fechar o livro e respirar. Hazelthorn é visceral em um sentido quase físico: ele te faz sentir fome, febre e medo. A prosa de Drews é úmida, orgânica, cada parágrafo parece escorrer.

    Mas o que mais me marcou foi o modo como o livro traduz a sensação de ser “demais”, de existir em um corpo que nunca cabe no mundo. Quando Evander mastiga terra, por fome e desespero, senti um nó na garganta. Aquilo não é loucura, é linguagem. É o corpo falando quando as palavras são negadas.

    Drews entende que monstros são o que resta quando a humanidade falha em compreender a diferença. E talvez o maior gesto de amor do livro seja este: permitir que um personagem autista, queer e traumatizado seja monstruoso, e ainda assim digno de empatia, de desejo e de redenção.

    No final, entendi o subtítulo que ecoa desde a dedicatória: “What is love if not devouring”. Hazelthorn é uma história sobre amor, mas não o tipo que consola. É um amor que devora, que corrói, que transforma. É sobre o desejo de ser livre e o medo de não saber o que fazer com essa liberdade quando ela finalmente chega.

    Terminei o livro tremendo, não de medo, mas de reconhecimento. Porque o que C. G. Drews faz aqui é mais do que narrar um horror gótico: é reivindicar o direito de pessoas autistas e queer sentirem raiva, fome, desejo e poder. É uma história sobre monstros que, no fundo, só queriam ser deixados em paz para florescer.E eu, leitora autista que sempre se sentiu errada, barulhenta demais, sensível demais,  amei Hazelthorn, porque Evander não pediu desculpas por ser intenso. Nem eu preciso mais.

  • Ela cresce em mim

    Ela cresce em mim

    Dizem que a floresta leva o que ama.
    Eu não acreditei, até sentir tuas mãos
    afundando em meu peito como quem planta algo.

    Tuas palavras eram raízes, e eu, solo.
    Aceitei teu toque como quem aceita a febre:
    sabendo que cura e destrói da mesma forma.

    Agora, quando respiro, ouço folhas.
    Quando durmo, sonho com dentes sob a terra.
    A floresta te imitou,
    ou foste tu que a ensinaste a amar devorando?

    Te vi dançando entre os troncos, nua de luz,
    com o coração batendo fora do corpo,
    pendurado por vinhas,
    um farol de carne chamando meu nome.

    Eu corri.
    Mas o chão era tua voz.
    E o vento, teu riso,
    docemente cruel, como se o amor tivesse dentes.

    Hoje acordo coberta de pétalas escuras,
    meu sangue pulsa verde.
    Teu nome cresce em minhas costelas,
    em letras de seiva e espinho.

    E às vezes penso:
    se eu abrir o peito,
    talvez encontre teu rosto ali dentro,
    sorrindo,
    enraizado no que restou de mim.

  • Repetição

    Repetição

    Caminho em círculos,
    sempre volto ao mesmo ponto.
    A amizade é um espelho rachado
    que devolve a mesma imagem,
    mesmo quando tento fugir.

    Sorrisos cansados,
    promessas que não duram,
    gestos que escondem a queda.
    O afeto se veste de cuidado,
    mas por baixo é corrente e faca.

    Aprendemos a cair juntos,
    a levantar só para repetir.
    É dança sem música,
    é pacto de silêncio,
    é laço que aperta,
    nunca liberta.

    E quando penso em romper,
    já é tarde:
    a roda gira outra vez,
    e eu retorno,
    como se fosse escolha.

  • Cicatriz em silêncio

    Cicatriz em silêncio

    Acordei tropeçando no tempo,
    antes que o dia pudesse nascer em mim.
    Vieram pedras travestidas de palavras,
    cada sílaba um corte,
    cada frase, um fardo impossível de sustentar.

    No almoço, não havia pão,
    mas culpas que nunca foram minhas.
    Apontaram-me como doença,
    quando sou apenas ferida exposta,
    implorando por cuidado,
    por um gesto breve de presença.

    E agora,
    quando a semana prometia sorrisos,
    só ecoa a dor.
    No calendário, uma vela se prepara para arder,
    mas em mim permanece a sombra do não-dito,
    do amor que não chegou,
    do abraço que faltou.

    Ainda assim, guardo um segredo silencioso:
    meu coração, mesmo em carne viva,
    insiste em florescer.

    E talvez seja isso
    a maior das coragens:
    renascer,
    mesmo entre as cinzas
    do que tentou me consumir.

  • Um dia para sobreviver, uma vida para temer

    Tim Lebbon conduz uma corrida contra o destino em que o verdadeiro terror não está apenas nas maldições do passado, mas nas escolhas humanas que perpetuam a escuridão

    Tim Lebbon retorna ao território que domina com maestria: o espaço entre o horror folclórico e o thriller psicológico. Em Secret Lives of the Dead, publicado em agosto de 2025, ele propõe uma narrativa de ritmo feroz, ambientada em apenas um único dia, onde escolhas impensadas e obsessões ancestrais convergem num desfecho brutal. O enredo parte de um gesto aparentemente adolescente, o desafio de invadir uma mansão em ruínas para roubar relíquias e joias cercadas por rumores de maldição, mas rapidamente se transforma em algo mais sombrio e implacável, conduzido pela presença de Lem, um homem que carrega nos ombros um fardo hereditário e uma fixação mórbida em “corrigir” os erros do passado.

    O grande mérito do romance está na sua capacidade de costurar tensão incessante com uma construção psicológica densa. Lebbon não se limita a perseguir personagens em fuga; ele os desnuda. Lem, impiedoso e obcecado, ganha contornos de uma figura quase mitológica, simultaneamente vilão e vítima de um destino familiar que o persegue há gerações. Do outro lado, Jodi emerge como uma anti-heroína marcada pela dor e pelo ressentimento, cujas escolhas a tornam tanto sobrevivente quanto cúmplice de sua própria tragédia. Em torno deles, BB e Matt orbitam como peças frágeis, sacrificáveis, cuja função é acentuar ainda mais o embate central entre obsessão e sobrevivência.

    O terror aqui não se apoia em aparições explícitas, mas na dúvida corrosiva: existe, de fato, uma maldição? Ou são as crenças, transmitidas como herança venenosa, que moldam a violência e o desespero? Essa ambiguidade mantém o leitor suspenso, numa oscilação entre superstição e realidade brutal. O efeito é poderoso: o horror nunca se cristaliza em algo visível, mas paira como névoa sufocante, tão psicológica quanto física.

    O estilo de Lebbon é visual, quase cinematográfico, e faz com que a narrativa se consuma com a velocidade de um filme de ação, sem perder a densidade emocional. É verdade que alguns momentos poderiam ter mais impacto, certos destinos de personagens soam menos explosivos do que o leitor espera, mas o saldo é de uma obra que equilibra espetáculo e introspecção com rara habilidade. O final, em especial, é descrito por críticos como devastador, capaz de sugar o ar da sala e deixar o leitor atônito.

    Secret Lives of the Dead não é apenas uma história sobre maldições ou perseguições. É, sobretudo, um romance sobre como o passado assombra, sobre a força corrosiva das crenças e sobre até onde alguém pode ir para escapar de um destino herdado. Brutal, belo e ambíguo, é um livro que prende pela adrenalina, mas permanece pela densidade humana dos personagens. Um daqueles horrores que nos lembram que, no fim, os monstros mais aterrorizantes talvez estejam naquilo que escolhemos acreditar.

  • Heranças que assombram, amores que libertam

    Um romance gótico queer onde o passado sussurra, o luto pulsa e o amor se recusa a morrer

    The Haunting of William Thorn é uma daquelas histórias que não apenas arrepiam, mas permanecem. Como uma bruma antiga que se infiltra pelas frestas da memória, o livro de Ben Alderson nos envolve em uma atmosfera gótica pulsante, onde luto e desejo, assombração e ternura coexistem. Com sua já característica sensibilidade queer, Alderson entrega um romance que é ao mesmo tempo sombrio e profundamente humano, um convite ao confronto com os fantasmas do passado, sejam eles literais ou emocionais.

    Tive o privilégio de ler este livro antecipadamente por meio de um E-ARC, e desde as primeiras páginas senti que estava diante de algo especial, um romance que não apenas entretém, mas que ressoa. A premissa, que mistura elementos de How to Sell a Haunted House e The Haunting of Hill House, nos apresenta a William, um homem devastado pela traição do namorado Archie e ainda mais pela morte repentina dele logo em seguida.

    Esse ponto de partida, sombrio e visceral, não é apenas um recurso narrativo, mas o alicerce emocional de toda a história. Quando William herda, inesperadamente, uma mansão decadente em uma vila inglesa aparentemente congelada no tempo, Alderson constrói um cenário gótico de tirar o fôlego,  com passagens secretas, sussurros noturnos e uma presença espiritual que não quer apenas assombrar: quer ser ouvida.

    A grande força do livro está em seu duplo movimento temporal. Enquanto acompanhamos William nos dias atuais lidando com o luto, a culpa e a crescente tensão com os moradores de Stonewall, somos levados também ao passado, aos anos 1920, para conhecer a comovente história de amor proibido entre dois homens, uma história que não apenas explica a origem da assombração, mas que espelha o próprio processo de cura de William.

    Alderson constrói personagens emocionalmente complexos: William é um protagonista falho, amargurado, mas extremamente humano. Edward, o misterioso aliado local, guarda segredos que desafiam as convenções da vila e talvez até do tempo. E o espírito que habita o casarão é tão trágico quanto ameaçador, forçando o leitor a questionar: o que, afinal, é um fantasma, senão uma dor que se recusa a ser esquecida?

    Com uma prosa envolvente e capítulos curtos que alternam entre presente e passado, o autor sustenta uma tensão constante, digna dos melhores romances góticos. Mas há também beleza na arquitetura da linguagem, nos lampejos de esperança e, principalmente, na ideia de que o amor, mesmo quando reprimido, pode ecoar por gerações.The Haunting of William Thorn é mais do que uma história de fantasmas: é um tratado sensível sobre perda, reconciliação e a força do amor queer em atravessar até mesmo a morte. Para fãs de casas mal-assombradas, segredos enterrados e representatividade emocionalmente honesta, esta leitura é imperdível.

  • A flor no inverno

    A flor no inverno

    Na casa dos ecos e portas fechadas,
    o trovão desceu mais cedo que o céu.
    Não foi raio de chuva nem vento nas telhas,
    foi o tempo mudando por dentro do véu.

    O velho carvalho, de tronco pesado,
    costumava ranger, resmungar, estremecer.
    Mas naquele dia, em vez de trovões,
    veio o galho curvado, disposto a ceder.

    A menina — folha mais alta do ramo,
    já conhecia o rugido do inverno,
    o estalo das janelas, a dor nos silêncios,
    o frio que se esconde no fundo do terno.

    Mas quando o galho partiu sem aviso,
    o ar ficou denso, o mundo girou.
    Foi a primeira vez que a terra rachou
    bem debaixo da flor que não desabrochou.

    Ela calou como quem guarda segredo,
    como quem aprende a sorrir com cuidado.
    Sabia que às vezes o céu mais azul
    também esconde um trovão disfarçado.

    E na sala onde o tempo desfez os retratos,
    ela cresceu, um pouco mais curva, um pouco mais só.
    Não se quebra só quando o galho estala.
    Às vezes, é o som que vem depois que se faz o nó.

  • A corte das cartas marcadas

    No coração de uma academia sombria onde cada carta carrega poder e perigo, Elise Kova conjura uma fantasia irresistível de falsos noivados, segredos proibidos e uma heroína que desafia o destino com um baralho encantado

    Arcana Academy, de Elise Kova, é uma mistura irresistível de fantasia romântica, intriga mágica e protagonistas moralmente ambíguos, ambientada em um universo onde o poder é medido por aquilo que se ousa esconder. Com sua escrita envolvente e uma premissa que mescla ação furtiva e romance de conveniência, a autora dá início a uma nova série que promete conquistar fãs de magia sombria e paixões perigosas.

    A protagonista, Clara Graysword, não é uma heroína tradicional, e esse é um dos pontos fortes do romance. Criada na criminalidade da decadente Eclipse City, ela sobrevive por meio de pequenos golpes, truques de rua e uma habilidade extremamente rara: a de “tatuar” magia viva em cartas de tarô, uma prática altamente ilegal fora da elite da Arcana Academy. A história começa quando Clara é capturada após uma missão fracassada e condenada à prisão perpétua. É aí que surge Prince Kaelis, o misterioso e aparentemente imperturbável reitor da academia mágica, com uma proposta que é tão absurda quanto tentadora: liberdade em troca de um falso noivado… e de um plano de roubo mágico de proporções reais.

    A relação entre Clara e Kaelis é construída sobre desconfiança e cinismo mútuo, mas recheada de faíscas desde o início. Não se trata de um romance açucarado, e sim de uma dinâmica complexa, feita de manipulação, atração velada e alianças frágeis. Clara é sagaz, cética e movida por sobrevivência, não por sonhos. Kaelis, por outro lado, é uma esfinge envolta em poder e segredos, que oferece proteção, mas também perigo. A tensão romântica entre os dois cresce com naturalidade, construída mais sobre os não ditos do que sobre declarações apaixonadas, o que torna tudo mais envolvente.

    O cenário da Arcana Academy adiciona um charme sombrio à narrativa. Ao contrário das tradicionais escolas de magia luminosas e acolhedoras, aqui o ambiente é um labirinto de regras políticas, segredos ocultos e disputas de poder. Cada carta de tarô mágica representa não apenas um feitiço, mas uma posição de influência, e o ato de “criar” cartas, reservado aos escolhidos, torna Clara uma ameaça e uma peça-chave em um jogo muito maior do que ela imaginava. A estrutura da academia, com seus clãs, castas e jogos de manipulação, lembra vagamente Hogwarts se tivesse sido projetada por Maquiavel.

    A trama avança em ritmo sólido, sem se perder em explicações excessivas do sistema mágico. Ao invés disso, Kova opta por uma construção orgânica: aprendemos com Clara, descobrimos os perigos e possibilidades dos tarôs mágicos à medida que ela os domina e se infiltra no meio acadêmico e aristocrático da Arcana. O sistema de magia baseado em cartas é uma das ideias mais criativas do livro, com ecos de Shadow and Bone e Caraval, mas com uma originalidade própria, especialmente na relação simbiótica entre poder, arte e identidade.

    Embora o foco esteja em Clara e Kaelis, os coadjuvantes ganham vida com personalidades distintas: rivais perigosos, aliados relutantes, e figuras da realeza que jogam conforme interesses próprios. Cada personagem parece carregar uma agenda, o que contribui para a atmosfera constante de tensão, ninguém é completamente confiável, e todos parecem ter algo a perder.

    Mas o que diferencia Arcana Academy de outras fantasias românticas do gênero é seu questionamento moral. Clara está constantemente entre duas forças: Kaelis, com sua proposta de um mundo novo e menos opressivo, e a tentação de usar o poder das cartas para si mesma. Ela não é uma revolucionária altruísta, mas tampouco uma vilã fria. É alguém tentando encontrar liberdade em um mundo que a considera descartável e disposta a arriscar tudo, inclusive o coração, para alcançá-la.

    Com uma escrita acessível, ágil e pontuada por diálogos inteligentes, Elise Kova entrega um primeiro volume que funciona como uma introdução eficiente a um mundo que ainda tem muito a revelar. O final, com seus ganchos estratégicos e revelações bem posicionadas, deixa claro que Clara tem muito mais por enfrentar e o leitor, muito mais por descobrir.

  • Entre os mortos só resta a linguagem

    Uma resenha crítica de quem desceu e voltou do inferno com R.F. Kuang

    R.F. Kuang mais uma vez escancara as entranhas da academia, mas desta vez ela o faz não apenas com o rigor de uma crítica social, ela o faz com fogo e magia. Em Katabasis, a autora leva seus leitores por uma jornada literal ao Inferno, reimaginado como um campo de batalha acadêmico, filosófico, mítico e emocional. É uma narrativa carregada de erudição e paixão, onde os limites entre o intelecto e a alma são não só borrados, mas desmantelados com precisão cirúrgica.

    A protagonista, Alice Law, é uma jovem brilhante, obcecada por ser a melhor em magia analítica, uma disciplina que combina lógica formal, matemática, linguística e prática arcana. Desde o início, sabemos que ela sacrificou tudo: relações, estabilidade mental, corpo e afetos. Ela está completamente moldada e deformada pelo sistema acadêmico que venera. E é esse sistema que desmorona diante de seus olhos quando seu mentor, Jacob Grimes, o maior mago vivo, morre subitamente durante um experimento.

    A partir daí, Kuang articula um enredo com ecos de A Divina Comédia, Orfeu e Eurídice e até Journey to the West (clássico da mitologia chinesa). Alice, guiada pela culpa e pelo medo de perder o pouco que conquistou, decide literalmente descer ao Inferno para resgatar o professor. Não por amor, mas por sobrevivência. Por reputação. Por obsessão.

    Mas o Inferno de Katabasis não é um submundo uniforme. É um arquipélago de tormentos lógicos, morais e burocráticos. Cada círculo parece fundado não em pecados religiosos, mas em distorções estruturais do conhecimento, da ética, do desejo de poder. E ao lado dela vai Peter Murdoch, seu rival na pós-graduação, que carrega suas próprias fraturas e ambições. A dinâmica entre eles, cheia de tensão, sarcasmo, ferocidade intelectual e, por vezes, uma vulnerabilidade pungente, é um dos grandes trunfos do livro.

    A estrutura da narrativa também reflete esse labirinto infernal. Kuang alterna entre ação direta, diálogos ferinos, trechos que soam como tratados filosóficos, e momentos de pura introspecção lírica. A prosa é refinada, cheia de referências explícitas a Dante, Homero, Platão, mas também a pensadoras contemporâneas e à mitologia chinesa, que insinuam uma dualidade cultural importante na formação de Alice.

    O que torna Katabasis tão poderoso, no entanto, não é só seu brilhantismo técnico. É sua honestidade brutal sobre o que é estar em um ambiente que exige perfeição enquanto silencia afetos, desejos e corpos. Alice é uma mulher atravessada pela misoginia institucionalizada, pela lógica da meritocracia destrutiva, pelo mito do gênio e por isso mesmo sua jornada é profundamente comovente. Ela não é heroína. É sobrevivente.

    O título do livro já nos prepara: “katabasis” é a descida ao mundo dos mortos, o mergulho no abismo, um rito antigo presente em múltiplas tradições. Mas Kuang não quer apenas reencenar mitos. Ela quer mostrar como estamos todos já vivendo neles. Como a academia se tornou, para tantos, um tipo de inferno ritualizado. E como, mesmo no mais árido dos lugares, ainda resta a linguagem. Ainda resta escrita. Ao fim, não há promessa de salvação, apenas de compreensão. Talvez isso seja o bastante. Talvez seja tudo que podemos pedir de um livro: que ele nos desça ao mais fundo de nós, e nos devolva algo novo. Mais ferido, sim. Mas também é mais verdadeiro.

  • O Sítio dos Esquecidos

    Na zona rural de Monte Verde, existe uma estrada de terra por onde ninguém se atreve a passar depois do pôr do sol. Dizem que ela leva ao antigo sítio dos Alencar — um lugar engolido pelo mato, onde o tempo parece ter parado e os cães já não latem. Foi lá que, vinte e dois anos atrás, uma moça desapareceu. A polícia procurou por meses. Os pais enlouqueceram. Mas nunca encontraram nada. Nem uma unha. Nem um grito.

    O nome dela era Mariana. E ela era minha.

    Nos amávamos às escondidas, como quem guarda um pecado. Mariana dizia que, quando nos formássemos, iríamos embora. Que viveríamos em um sítio, com cavalos, manacás e paz. Falava com uma esperança que destoava daquela cidade tão apodrecida.

    Na noite em que sumiu, ela me ligou chorando. Disse que o pai descobrira tudo. Que ia fugir naquela madrugada.
    “Me encontra na estrada velha. Três da manhã. Não falha.”

    Eu fui. Esperei. Ela nunca veio.

    Hoje é sexta-feira 13. Vinte e dois anos depois. E eu voltei. Voltei porque recebi uma carta. Papel amarelado, dobrado em quatro. A mesma caligrafia curva dos bilhetes que ela escondia nos meus livros da escola.

    A carta dizia:
    “Ainda estou aqui. Me encontra na estrada. Três da manhã. Como combinamos.”

    Meu coração socava por dentro. A estrada seguia a mesma. Só mais escura. Mais morta.

    O vento cortava rente aos ouvidos. O capim alto se movia devagar, como se respirasse. E então… eu a vi.

    De pé, no meio da estrada. Usava o mesmo vestido azul da última noite. Mas agora o tecido estava manchado, encharcado de uma lama escura que parecia brotar de dentro dela. O rosto… torto. O maxilar deslocado, costurado por dentro com algo que brilhava como arame. Ainda assim… era Mariana.

    “Você tá viva?” Minha voz falhou.

    Ela sorriu. Devagar. Um sorriso que se esticava além do possível. Os dentes — escurecidos nas bordas, a gengiva como papel queimado.

    “De certa forma. Mas preciso que você me ajude… a lembrar.”

    “Lembrar do quê?”

    Ela estendeu a mão. Fria. Suja de terra sob as unhas. E apontou para mim.

    “De quem me matou.”

    Corri.

    Os gritos dela me rasgaram por dentro, como farpas de vidro.

    Mas consegui fugir.

    Voltei no dia seguinte, de manhã. Levei uma pá. Cavei onde ela indicou: debaixo da figueira torta. Encontrei ossos. Um crânio. E o colar que eu mesma dera a ela no nosso último aniversário. Mas havia mais. Entre os ossos, um diário. Eu não me lembrava dele. Mas ele se lembrava de mim.

    As páginas estavam rasgadas, mas li as últimas linhas:
    “Ela descobriu. A irmã também está grávida. Do mesmo homem. Disse que, se eu contasse, me matava. Mas se eu escondesse… ela mataria ele. Então menti. Só que agora ela sabe. Agora é tarde.”

    O mundo escureceu dentro de mim. Porque eu lembrei.

    Lembrei da briga. Dos gritos. Do empurrão.
    Do som oco da cabeça dela rachando na pedra.
    Fui eu quem cavou. Fui eu quem escondeu. Fui eu quem esqueceu.

    Mariana nunca desapareceu. Eu a matei.

    Joguei a pá fora. Queimei o diário. Tentei seguir em frente. Mas naquela noite, alguém bateu na minha porta.

    Não era uma nova carta. Era Mariana.

    O mesmo vestido. O mesmo sorriso. Mas atrás dela… mais gente. Pessoas que eu conhecia. Pessoas que haviam desaparecido ao longo dos anos. Todos com olhos fundos. Todos sorrindo.

    Ela me olhou e disse:

    “Lembra que a gente ia ter um sítio? Agora temos. Só falta você morar lá. Com a gente. Pra sempre.”

    Ninguém nunca mais viu a mulher que cavou sob a figueira. Mas toda sexta-feira 13, uma nova carta é entregue. A letra é dela. O papel, o mesmo.

    E sempre que isso acontece, alguém desaparece.

    Porque Mariana não quer só justiça.
    Ela está montando uma família.