• O Sítio dos Esquecidos

    Na zona rural de Monte Verde, existe uma estrada de terra por onde ninguém se atreve a passar depois do pôr do sol. Dizem que ela leva ao antigo sítio dos Alencar — um lugar engolido pelo mato, onde o tempo parece ter parado e os cães já não latem. Foi lá que, vinte e dois anos atrás, uma moça desapareceu. A polícia procurou por meses. Os pais enlouqueceram. Mas nunca encontraram nada. Nem uma unha. Nem um grito.

    O nome dela era Mariana. E ela era minha.

    Nos amávamos às escondidas, como quem guarda um pecado. Mariana dizia que, quando nos formássemos, iríamos embora. Que viveríamos em um sítio, com cavalos, manacás e paz. Falava com uma esperança que destoava daquela cidade tão apodrecida.

    Na noite em que sumiu, ela me ligou chorando. Disse que o pai descobrira tudo. Que ia fugir naquela madrugada.
    “Me encontra na estrada velha. Três da manhã. Não falha.”

    Eu fui. Esperei. Ela nunca veio.

    Hoje é sexta-feira 13. Vinte e dois anos depois. E eu voltei. Voltei porque recebi uma carta. Papel amarelado, dobrado em quatro. A mesma caligrafia curva dos bilhetes que ela escondia nos meus livros da escola.

    A carta dizia:
    “Ainda estou aqui. Me encontra na estrada. Três da manhã. Como combinamos.”

    Meu coração socava por dentro. A estrada seguia a mesma. Só mais escura. Mais morta.

    O vento cortava rente aos ouvidos. O capim alto se movia devagar, como se respirasse. E então… eu a vi.

    De pé, no meio da estrada. Usava o mesmo vestido azul da última noite. Mas agora o tecido estava manchado, encharcado de uma lama escura que parecia brotar de dentro dela. O rosto… torto. O maxilar deslocado, costurado por dentro com algo que brilhava como arame. Ainda assim… era Mariana.

    “Você tá viva?” Minha voz falhou.

    Ela sorriu. Devagar. Um sorriso que se esticava além do possível. Os dentes — escurecidos nas bordas, a gengiva como papel queimado.

    “De certa forma. Mas preciso que você me ajude… a lembrar.”

    “Lembrar do quê?”

    Ela estendeu a mão. Fria. Suja de terra sob as unhas. E apontou para mim.

    “De quem me matou.”

    Corri.

    Os gritos dela me rasgaram por dentro, como farpas de vidro.

    Mas consegui fugir.

    Voltei no dia seguinte, de manhã. Levei uma pá. Cavei onde ela indicou: debaixo da figueira torta. Encontrei ossos. Um crânio. E o colar que eu mesma dera a ela no nosso último aniversário. Mas havia mais. Entre os ossos, um diário. Eu não me lembrava dele. Mas ele se lembrava de mim.

    As páginas estavam rasgadas, mas li as últimas linhas:
    “Ela descobriu. A irmã também está grávida. Do mesmo homem. Disse que, se eu contasse, me matava. Mas se eu escondesse… ela mataria ele. Então menti. Só que agora ela sabe. Agora é tarde.”

    O mundo escureceu dentro de mim. Porque eu lembrei.

    Lembrei da briga. Dos gritos. Do empurrão.
    Do som oco da cabeça dela rachando na pedra.
    Fui eu quem cavou. Fui eu quem escondeu. Fui eu quem esqueceu.

    Mariana nunca desapareceu. Eu a matei.

    Joguei a pá fora. Queimei o diário. Tentei seguir em frente. Mas naquela noite, alguém bateu na minha porta.

    Não era uma nova carta. Era Mariana.

    O mesmo vestido. O mesmo sorriso. Mas atrás dela… mais gente. Pessoas que eu conhecia. Pessoas que haviam desaparecido ao longo dos anos. Todos com olhos fundos. Todos sorrindo.

    Ela me olhou e disse:

    “Lembra que a gente ia ter um sítio? Agora temos. Só falta você morar lá. Com a gente. Pra sempre.”

    Ninguém nunca mais viu a mulher que cavou sob a figueira. Mas toda sexta-feira 13, uma nova carta é entregue. A letra é dela. O papel, o mesmo.

    E sempre que isso acontece, alguém desaparece.

    Porque Mariana não quer só justiça.
    Ela está montando uma família.

  • O que anda sob a pele

    O que anda sob a pele

    Há histórias que não pertencem ao agora. Elas se arrastam desde tempos antigos, caminhando sob a pele da Terra, entre rochas vermelhas e desertos silenciosos. No coração das crenças do povo Navajo — e ecoando entre outras tribos do Sudoeste, como os Ute, Hopi e Pueblo — vive um nome que poucos ousam pronunciar: yee naaldlooshii. Aquele que caminha em quatro patas.

    Um skinwalker, dizem, não é apenas um monstro. É um lembrete. Uma consequência. Um aviso sussurrado geração após geração sobre os limites que não se devem cruzar.

    Conta-se que um homem — ou mulher, não importa — para se tornar um skinwalker, precisa antes trair o próprio sangue. Um sacrifício íntimo, fatal, que arranca do mundo natural a última centelha de humanidade e a substitui por um poder sombrio: a habilidade de mudar de forma, invadir corpos, vestir peles de animais ou até de pessoas, e assim semear o medo. Urso, coruja, coiote — cada forma escolhida não é aleatória, mas estratégica, como se o mal também soubesse de tática.

    Esses seres não apenas mudam de corpo. Eles mudam o ar. Onde passam, os cães se escondem, os olhos ardem, o silêncio pesa. Eles batem nas janelas durante a noite, imitam vozes queridas, arrastam presenças mortas pela escuridão como quem arrasta correntes esquecidas. E mesmo assim, não são vistos com frequência. Eles são sentidos.

    Entre os povos que guardam essa história, falar sobre skinwalkers é mais do que um tabu. É abrir uma porta. Acredita-se que nomeá-los atrai sua atenção. Que o simples ato de narrar já é um chamado. Por isso, os velhos preferem o silêncio. E quando falam, fazem-no com olhos baixos e palavras contidas, como quem respeita algo que ainda está à espreita.

    Mas o mundo lá fora — aquele das câmeras, dos roteiros e dos documentários sensacionalistas — não se cala. O caso do Rancho Skinwalker, por exemplo, transformou a criatura num ícone pop: gado mutilado, ruídos inexplicáveis, sombras que correm mais rápido que a razão. E ali, onde o folclore virou atração, a linha entre o medo e o espetáculo foi enterrada sob holofotes.

    Há quem acredite piamente. Há quem ache tudo isso invenção. Mas a verdade é que essa dúvida diz mais sobre nós do que sobre eles. Os skinwalkers são, acima de tudo, parte de uma tapeçaria cultural profunda — uma história que carrega, ao mesmo tempo, terror e sabedoria. São símbolos do que acontece quando o equilíbrio se rompe, quando o espírito humano vira arma.

    E talvez esse seja o maior valor dessas histórias: lembrar que há fronteiras espirituais que não deveriam ser violadas. Que a natureza — e o sobrenatural — exige reverência. Que nem tudo deve ser traduzido, filmado ou explicado.

    Afinal, algumas histórias não foram feitas para entretenimento.

    Foram feitas para silêncio.

  • Maré Eterna

    Maré Eterna

    Nas falésias enevoadas da vila de Brannoch, o vento carregava um lamento antigo, quase como uma canção esquecida do mar. Marisa caminhava descalça pela areia fria, sentindo o corpo enfraquecer a cada passo, o peso da doença roubando-lhe a vida como uma maré lenta e implacável. Ainda assim, havia em seu olhar uma luz tênue, uma esperança frágil que se agarrava ao infinito das ondas.

    Numa noite em que a lua parecia um espelho prateado sobre o mar, Evora emergiu das águas, sua pele translúcida brilhando sob a luz suave, seus olhos profundos como abismos. Ela sentiu, com uma dor aguda no peito, a tristeza de Marisa, uma alma que lutava contra o inevitável. Sem hesitar, Evora se aproximou, e quando seus olhares se encontraram, algo indescritível nasceu — um amor intenso, urgente e proibido, tão frágil quanto a vida que se esvaía entre os dedos de Marisa.

    Evora deixou sua pele de foca cair, aceitando o preço de abandonar o mar para estar ao lado de quem amava. Cada toque era um sussurro de eternidade, cada sorriso um desafio ao tempo cruel que os separava. Sob o céu carregado de estrelas, entre tempestades e silêncios, elas viveram um amor que queimava mais forte do que a dor e o medo. Marisa segurava a mão de Evora como se fosse a única âncora em um mundo que desmoronava.

    Mas o destino é implacável. A doença continuava sua dança sombria, roubando as cores do rosto de Marisa, apagando lentamente sua presença. Evora sentia seu coração despedaçar a cada fraquejo da amada, a cada respiração que se tornava mais difícil, como se o próprio mar lhe arranhasse a alma.

    Desesperada, Evora mergulhou nas profundezas abissais, enfrentando monstros antigos, correntes traiçoeiras e o silêncio mortal do oceano. Buscou entre segredos ancestrais uma cura, um milagre que pudesse estender os poucos momentos que ainda restavam. Mas o mar, vasto e poderoso, não podia dobrar as leis do tempo, nem desfazer o fio trágico do destino.

    Quando Evora retornou, trazendo um relicário feito das conchas negras e lágrimas salgadas do oceano, encontrou Marisa quase sem forças, os olhos semiabertos, como se já caminhando para um sonho eterno. Com a voz embargada, Evora sussurrou: “Eu tentei tudo, mas nem mesmo o mar pode vencer o que te consome”.

    Marisa, com um sorriso triste e a mão fraca acariciando o rosto da selkie, respondeu: “Nosso amor é mais forte que a morte. Nem a escuridão que me leva pode apagar o que vivi contigo. Quando eu me for, lembrarei de você no som das ondas, no beijo do vento, no silêncio da noite”.

    Naquela última noite, sob uma lua vermelha que parecia chorar sangue, Evora segurou Marisa no colo, sentindo cada segundo fugir como a maré que se retira da praia. As lágrimas de Evora misturavam-se ao sal do mar enquanto ela sussurrava palavras de amor e despedida. “Eu te amo” repetia, como uma prece desesperada — “não importa onde você vá, meu coração será seu abrigo eterno”.

    Marisa fechou os olhos pela última vez, deixando escapar um último suspiro, quase um pedido: “Leve meu amor para o mar… deixe que ele nos proteja onde a terra não pode”.

    Quando a aurora rompeu o céu, o corpo de Marisa, sereno, estava envolto pelas algas negras, como um último abraço do oceano. Evora mergulhou nas profundezas, sua dor imensa como as sombras abissais, sabendo que perdera a única vida que queria salvar.

    O amor delas agora vivia nas ondas, uma maré eterna de saudade, um sussurro triste no vento que nunca cessaria.

  • Reino de um só trono


    Cresci no castelo de um rei sem espelho,
    Que usava meus olhos pra ver seu brilho.
    Suas palavras eram coroas de espinho,
    E o amor, um cetro que pesava sozinho.

    Na mesa, só havia um prato cheio —
    O dele.
    E eu, faminta de afeto,
    Aprendi a viver de migalhas de ego.

    Ele pintava o céu com seu próprio nome,
    E chamava de tempestade qualquer sombra que não fosse sua.
    Se eu chorava?
    Dizia que o chão era fraco demais pra sustentar meus passos.

    Fui jardim sem sol,
    Regado a exigência,
    Podado sempre que florescia fora do molde.

    Meu riso era silêncio sob o rugido da sala,
    Minha alegria: uma vela que ele apagava com sopro de raiva.
    Nunca fui criança —
    Fui moldura dourada para um retrato que não era meu.

    Mas um dia, o vento me contou
    Que há florestas fora dos muros.
    Que o mundo não gira só num trono.
    Que o eco do meu nome também merece espaço.

    Ainda não parti.
    Meus pés conhecem os portões, mas não o caminho.
    A chave ainda não é minha.
    Mas guardo no peito o mapa da fuga,
    E um grão de coragem, escondido na palma.

    Ainda danço no salão que ele vigia,
    Com passos miúdos e olhos abertos.
    Mas mesmo cercada de espelhos que distorcem,
    Eu sei: existe algo em mim que não pertence a ele.

    E isso…
    Ele nunca poderá apagar.

  • O Banquete de Amora

    O Banquete de Amora

    Ela surgiu numa terça-feira úmida, dessas em que o ar parece suado, prenhe de alguma febre invisível. Vestia um tecido que grudava no corpo como carne viva — um vermelho de miolo exposto, nada parecido com os vermelhos alegres dos comerciais. O nome que me deu foi Amora. E ela tinha gosto de fruta fermentada, de coisa esquecida no fundo do bosque, onde a podridão vira perfume.

    Nos conhecemos na porta de um açougue fechado. Eu carregava músculo bovino em sacola de plástico; ela só carregava fome. Olhou pra mim como quem lê o cardápio de trás pra frente — das entranhas à casca. Disse que adorava carne humana. Eu ri. Pensei que fosse humor alternativo. Era preâmbulo.

    Amora me amou com os dentes antes de me tocar com as mãos. Me beijava como quem rasga envelope com a boca, ansiosa por alguma mensagem secreta escondida sob a pele. Dizia que “amor de verdade se digere”, e que o único jeito de me ter era me consumir — parte por parte, em longos rituais de mesa posta e luxúria transbordada.

    Ela me tratava como prato principal, mas com ternura de chef. Sabia os meus cortes mais nobres: a maciez do pescoço, o ponto exato entre a clavícula e a saudade. Passava azeite nos meus ombros, enfeitava meu corpo com alecrim, e recitava orações feitas de saliva.

    No início, eram só mordidas. Mimos. Dentadas que ficavam entre o prazer e o hematoma. Mas logo ela começou a colher pedaços. Um naco de coxa aqui. Um fragmento de língua durante um beijo mais faminto. Eu deixava. Não por submissão — mas por um desejo sagrado de ser albergada dentro dela. Ser digerida era, para mim, a forma mais pura de permanência.

    Nosso quarto era meio altar, meio frigorífico. Velas pretas pingando cera espessa. O lençol manchado como tábua de corte. O cheiro? Uma mistura entre incenso e sangue morno — familiar, quase acolhedor. O amor ali não era metáfora: era faca. E cada “eu te amo” vinha seguido de uma incisão.

    Na última noite, ela chorou. Gotas salgadas misturadas ao molho que preparava. Sussurrou que eu era o último banquete — o final perfeito para o jejum que ela havia sido antes de mim. Me despiu com a reverência de quem desembrulha oferenda. Ajoelhou-se. Me abriu.

    Senti a língua dela passear por dentro como quem conhece a casa pela primeira vez, encantada com cada cômodo. Quando segurou meu coração com as mãos — quentinho, pulsando, obediente —, eu sorri. Não por coragem. Por entrega.

    E ali, entre garfadas de mim e goles do meu sangue quente, entendi tudo:

    Amora não me queria morta.

    Me queria eterna.

    Hoje, se cruzarem com ela por aí, prestem atenção:

    Ela anda com um brilho no olhar que não é dela.

    Talvez percebam um certo jeito meu de morder o mundo, um sorriso que nunca foi só dela.

  • Eco em Prata

    Eco em Prata

    Forjamos saber com sangue.
    Prata, tinta, ossos.
    Cada palavra traduzida
    matava uma outra — em silêncio.

    Babel brilhava como um farol,
    mas o brilho era febre,
    não luz.

    Os livros sussurravam verdades
    que só serviam àqueles
    com os pés fincados em terra roubada.

    Fomos escolhidos.
    Mas não para entender —
    para servir.

    Nas torres, aprendemos a trair
    com frases elegantes.
    A roubar o mundo
    com um léxico encantado.

    Chamavam de ciência.
    Mas era feitiçaria imperial,
    escrita à custa de línguas extintas
    e nomes apagados como poeira.

    Fomos cúmplices.
    Fomos mártires.
    Fomos… necessários?

    As chaves que giramos nos portões da mudança
    também trancaram nossas próprias prisões.

    E agora Babel ruge.
    Mas não em glória.
    Em queda. Como toda torre feita de orgulho
    e mentiras bem traduzidas.

  • O Deus Esquecido

    O Deus Esquecido

    No ventre escuro da mata esquecida,
    onde o silêncio respira temor,
    ergue-se a forma que nunca é bem-vinda,
    nascida da terra, da dor e do horror.

    Tem chifres de galho, olhos de abismo,
    passos que o chão não ousa negar.
    É sombra vestida de antigo batismo,
    o eco que veio pra reclamar.

    A vila cochicha com voz contida,
    reza a um céu que nunca responde.
    Mas ele escuta — a prece perdida
    que brota do sangue e se esconde.

    Os homens o chamam de praga e veneno,
    acusam com fogo, com cruz e com fé.
    Mas nunca se olham no espelho pequeno
    que guarda o mal de onde ele é.

    Na escuridão, uma alma se parte,
    e o medo se curva ao que não se vê.
    Pois há mais verdade na morte que arde
    do que em mil promessas de não ser quem é.

    Ele não fala — mas tudo entende,
    pois fala o idioma da raiz que apodrece,
    do osso quebrado, da carne que rende,
    da alma queimada que nunca esquece.E dança.
    Dança com a noite, com os vermes, com o lodo,
    pois sabe que o mundo não teme o demônio,
    teme o retorno de um deus sem decoro,
    que vem da floresta… pra cobrar o que é todo.

  • Fúria em Fá Menor

    Fúria em Fá Menor

    Elena Marés nasceu com os ouvidos banhados em música, em uma pequena vila costeira onde o vento soprava como uma sinfonia. Filha de uma professora de música e um marinheiro, ela aprendeu a tocar piano antes mesmo de aprender a escrever o próprio nome. Aos sete anos, já reproduzia de ouvido peças que ouvia apenas uma vez. Aos doze, era chamada de prodígio. Aos dezessete, de promessa. Aos vinte e três, era lenda.

    Mas fama nunca foi o que Elena buscava. O piano era sua forma de falar, de existir. Palavras nunca couberam nela do jeito que as notas cabiam. E foi através da música que ela conheceu Maya.

    Maya Ferraz era jornalista de música clássica, dona de um sorriso torto e uma coragem que atravessava paredes. Foi ela quem, certa vez, invadiu um ensaio exclusivo só para entrevistar Elena. Saíram juntas daquela sala com os corações trocados, e nunca mais devolveram.

    Por anos, foram inseparáveis. Viagens, recitais, jantares às escondidas. Elena escrevia peças só para Maya. Maya escrevia crônicas só para Elena. Era amor, daquele tipo que se percebe de longe. Inquebrável, até que alguém tentou quebrar.

    Esse alguém era Lídia Von Auster. Regente consagrada, dona de uma academia prestigiada de música em Viena, e… antiga mentora — e obsessão — de Elena.

    Lídia descobriu Elena ainda jovem, moldou seu talento, lapidou sua técnica… e tentou apagar sua alma no processo. O amor de Maya salvou Elena disso. Lídia não perdoou.

    Nos bastidores do mundo clássico, onde a aparência de elegância esconde facas afiadas, rumores começaram a se espalhar. Contratos foram cancelados, convites desapareceram, e o nome de Elena foi progressivamente apagado das grandes temporadas europeias.

    Maya investigou. E o que encontrou foi mais do que difamação: foi perseguição. Manipulação. Chantagem. Atingia não só a carreira de Elena, mas também suas finanças, sua saúde, sua liberdade.

    Elena afastou-se dos palcos por dois anos. Foi Clara quem manteve tudo em pé — a casa, os sonhos, o amor. Até que um convite chegou.

    Um último concerto. Uma homenagem à arte, com os nomes mais influentes da música clássica. Um palco histórico. Público global. E, nos bastidores da organização… Lídia Von Auster.

    Maya sabia que era uma armadilha. Elena também. Mas aceitaram.

    “Ela quer me ver dobrar,” disse Elena.
    “Então mostre a ela o que acontece quando tentam quebrar você,” respondeu Maya.

    Na noite do concerto, tudo estava perfeitamente preparado. O vestido, o repertório, a plateia cheia. Mas algo estava errado. Maya sumiu minutos antes de Elena subir ao palco.

    E quando a cortina se abriu, e a luz tocou o piano, Elena finalmente a viu — no camarote à esquerda, ajoelhada, com a vilã por trás dela, arma em punho.

    O palco virou arena.

    A música virou arma.

    A alma, guerra.

    O primeiro acorde soou como um trovão. Elena não olhou para as teclas. Não precisava. Os olhos estavam presos na imagem de Maya, ajoelhada no camarote com a arma apontada para a cabeça.

    A música que saiu do piano não era nenhuma peça conhecida. Era dela. Nasceu ali, naquele segundo, do medo e do amor e da raiva que queimava por dentro. Uma composição bruta, viva, violenta. Era mais grito do que melodia.

    O público, acostumado à elegância contida dos concertos, não sabia como reagir. Mas ninguém ousava se mover.

    Cada nota era um golpe. Cada acorde, um avanço. Elena atacava o piano como se pudesse atravessar a distância entre o palco e o camarote apenas com som. E, de algum modo, conseguia. Lídia começou a tremer.

    O som era brutal. Não havia pausa, não havia piedade. Os dedos de Elena batiam com tanta força nas teclas que as unhas começaram a rachar. A pele cedeu. O sangue escorreu. Primeiro tímido, depois em rios finos, tingindo as teclas brancas e pretas de um vermelho vivo. Mas ela continuava.

    Não era mais uma apresentação. Era um duelo.

    O público se levantou em uníssono, em choque, arrebatado por algo que não entendiam completamente. Alguns choravam. Outros gritavam. Mas Elena não ouvia nada. Ela tocava para Maya. Ela tocava para salvar.

    E então, algo aconteceu.

    Lídia, no camarote, começou a recuar um passo. Depois outro. A arma tremia, baixa. Os olhos, arregalados, tentavam resistir àquilo que sentia no corpo — um som que atravessava os ossos, como se fosse despedaçá-la de dentro pra fora.

    Ela gritou algo, mas a música engoliu as palavras.

    Maya, mesmo ajoelhada, olhou para Elena com um fio de esperança. E Elena, ainda tocando, assentiu levemente. Estavam ligadas. Como sempre estiveram.

    A peça chegou ao clímax. Elena cravou os dedos — feridos, ensanguentados — com toda a força. Um último acorde. Longo, tremendo, eterno. Quando ele ecoou no teatro, o mundo parecia ter parado de girar.

    Silêncio.

    A arma de Lídia caiu no chão com um som seco. Guardas se moveram. Gritos no fundo. Mas Elena não reagiu. Seus olhos se fecharam por um segundo, como se estivesse tentando manter Clara ali dentro, segura, num lugar onde a música ainda era proteção.

    Quando os olhos se abriram, ela viu Maya correndo em sua direção.

    Elena se levantou com dificuldade, os dedos ainda sangrando, o vestido agora manchado. Clara subiu ao palco e a abraçou, apertado, em meio aos aplausos mais intensos que aquele teatro já conheceu.

    A multidão gritava, mas elas não ouviam nada além do coração uma da outra.

    E atrás do piano, entre o sangue e as teclas, Elena deixou a última nota ecoar. Uma cicatriz sonora. Um fim e um começo.

  • A última pauta

    A última pauta

    O cheiro foi a primeira coisa que atingiu Lívia Santoro. Não o odor comum da morte — não era apenas carne em decomposição, era algo mais primitivo. Denso. Como se o ar fosse feito de sangue envelhecido e ossos moídos. Ela apertou o lenço contra o rosto e avançou entre os arbustos da reserva florestal interditada, guiada apenas por uma lanterna e seu instinto jornalístico.

    Não era a primeira vez que cobria um assassinato. Mas havia algo de errado naquele caso desde o início.

    O corpo havia sido encontrado pendurado a sete metros de altura, preso entre os galhos de uma figueira antiga, despido e virado do avesso. A pele, esticada e costurada como uma bandeira, tremulava com o vento. As vísceras estavam organizadas em padrões circulares no solo.

    Não havia sangue. Só silêncio.

    Lívia anotou os detalhes em seu bloco — ela sempre escrevia à mão, mesmo na era dos tablets. Era o peso da palavra escrita que a fazia continuar. E aquela cena, absurda, precisava ser documentada com precisão. A polícia tentou calar. A perícia não se pronunciava. O delegado usava termos como “vandalismo ritualístico”, mas nem ele acreditava nisso.

    Foi uma frase no relatório que a perseguiu desde o primeiro dia: “Marcas indicam que a vítima pode ter permanecido consciente durante o procedimento.”

    Três dias depois, outro corpo. E depois mais um. Cada um mais macabro que o anterior. Línguas costuradas no lugar dos olhos. Dentes enfileirados como teclas de máquina de escrever sobre pedras.

    Marcas na terra – não pegadas. Arranhões simétricos, como se algo com garras, mas dotado de inteligência, tivesse desenhado algo.

    A palavra VEJO apareceu repetida em diversos pontos. Em árvores, na carne das vítimas, nas paredes de concreto de uma construção abandonada. Não grafada – cravada.

    Lívia iniciou a investigação por conta própria, com câmera, gravador e um medo crescente. As evidências levavam à antiga usina de purificação da cidade, fechada após um incêndio misterioso em 1994.

    Lá, encontrou os arquivos que ninguém mencionava: registros de desaparecimentos de funcionários, todos os boletins internos arquivados com o carimbo Confidencial. Havia relatos de “sons vindos dos dutos” e “coisas rastejando pelas paredes”. Um dos documentos continha uma frase escrita com sangue seco:

    “Ele nasceu da fome das palavras. E agora nos escreve de volta.”

    Na noite do dia 21 de fevereiro, Lívia fez sua última entrada no diário de campo:

    “Estou indo até a zona cega da floresta. O sinal morre lá, mas deixarei registros em fita. Encontrei uma trilha de ossos — literalmente. Pedaços pequenos, humanos, organizados como se fossem frases em uma língua que não compreendo. Acho que ele fala. E acho que quer ser compreendido.”

    “Se eu não voltar… não deixem que apaguem isso.”

    Ela entrou na floresta às 23h04. O sinal foi perdido às 23h12.

    O que restou foi o áudio encontrado em seu gravador, deixado misteriosamente na recepção do jornal dois dias depois, embrulhado em um pano de carne costurada.

    No áudio, sua respiração está irregular. Há estalos, como carne viva se esticando. Sons úmidos. E então, sua voz, quase um sussurro:

    “Ele me observava o tempo todo. Ele entende o que somos. Ele nos lê. E agora, ele escreve com a gente.”

    “Ele pensa. Ele aprende. Ele está me escrevendo agora.”

    “[gargalhada distorcida] E eu sou só mais uma letra…”

    Depois, só silêncio. Longo. Vivo.

    Nenhum corpo foi encontrado. Nenhum sinal de luta. 

    Somente um recado, entalhado na porta da redação, com garras afiadas e simetria assustadora:

    “ELA ESCREVEU SOBRE MIM. AGORA, EU ESCREVO COM ELA.”

    Fim.

    Ou, como ela escreveria… início.

  • Banquete em Silêncio

    Banquete em Silêncio

    Na penumbra onde a razão apodrece,
    ele caminha — terno, preciso,
    com olhos que cortam mais fundo
    que o bisturi em sua mão de artífice.

    Cada palavra: um prato.
    Cada silêncio: um vinho tinto e espesso.
    Ele serve a morte com tal elegância
    que a culpa se curva, agradecendo.

    As vísceras, expostas como arte.
    O corpo, um templo profanado com estilo.
    Na carne do outro, ele lê confissões
    que nem a alma ousaria dizer em voz alta.

    Te observa — não como homem,
    mas como o lobo observa a floresta:
    já sabendo onde você irá sangrar,
    antes mesmo de você correr.

    O amor, para ele, tem gosto de fígado.
    A amizade, textura de pele fresca.
    E a compaixão…
    essa ele cozinha lentamente, até desaparecer.

    Quando sorrir, fuja.
    Quando calar, reze.
    Porque no fim, ele não mata por fome —
    mas por estética.