• Reflexo do Abismo

    Reflexo do Abismo

    Ele me vê.
    Não como os outros —
    mas como a fera reconhece o espelho.

    Seus olhos me despem em silêncio,
    cirurgicamente.
    Não há toque, mas sangro.

    Caminhamos lado a lado
    em corredores onde a ética apodrece,
    e a moral é apenas mais um bisturi
    na mesa de dissecação.

    Ele fala com beleza,
    como se a morte fosse um idioma raro
    e eu… seu único tradutor.

    Sinto-o dentro da minha cabeça,
    como uma febre que pensa,
    como uma fome que fala.

    E o pior —
    não é o medo que me toma.
    É o desejo.

    Desejo de entender.
    Desejo de ceder.
    De ver o mundo como ele vê:
    um jardim de horrores,
    regado com intenções.

    Somos dois — ou talvez um só.
    Eu caço monstros…
    mas quando olho no espelho,
    vejo seu sorriso no meu reflexo.

  • Rubra Memória

    Rubra Memória

    Rompe a romã seu ventre na estação  

    como se o tempo abrisse a própria carne —  

    sangra em silêncio, lenta, no quintal  

    vida contida.  

    Tudo que é cheio um dia se derrama:  

    sonhos, segredos, lutos, esperanças.  

    Cada rubi que escorre em sua polpa  

    traz uma história.  

    Guardo romãs na taça da memória,  

    frutos que amei, perdi, depois plantei.  

    Bebo o sumo que resta em cada ausência —  

    farta lembrança.

  • Cores verdadeiras

    Cores verdadeiras

    Vou ser bem sincera, não dá mais pra esconder,  

    Ela usou demais da minha bondade, sem perceber.  

    Foi na minha casa, com um sorriso a enganar,  

    Pediu minhas coisas, e eu deixei sem questionar.

    Emprestei meu tempo, minha energia, sem medir,  

    Mas o que recebi? Só silêncio a me consumir.  

    Dei o que tinha, sem pensar no que podia faltar,  

    Agora vejo que eu me deixei anular.

    Ela tomou tanto de mim, sem olhar pra trás,  

    E eu, perdida na confiança, não via os sinais.  

    Minha bondade, que parecia sem fim,  

    Foi sendo consumida, até que restou só pra mim.

    Hoje eu vejo claro, a lição que ficou,  

    A amizade também precisa de amor.  

    Vou ser mais cuidadosa, com o que me resta,  

    Porque minha bondade merece ser uma festa.

  • O Voo das Borboletas

    O Voo das Borboletas

    Em tempos antigos, as borboletas eram vistas com receio, um reflexo daquilo que era desconhecido, ou mesmo do que se temia. Elas nasciam pequenas, quase invisíveis, e tinham o hábito de se esconder nas sombras até o momento de sua metamorfose. Quando emergiam, já haviam se transformado em algo novo, belo e imprevisível. Uma vez voando livremente, as borboletas nos lembravam da fragilidade da vida e da capacidade de transformação. 

    Era assim que eu via os pais de antigamente, aqueles que, por anos a fio, olharam para a homossexualidade com estranhamento, com medo e, em muitos casos, com uma reprovação velada. A ideia de um filho ou filha ser diferente, de ser um traço em uma pintura que os padrões não conseguiam compreender, causava-lhes um desconforto profundo. Eles a viam como uma mutação, algo a ser corrigido, algo de que se afastar, como se a identidade de um filho fosse um reflexo de seus próprios erros.

    Era uma época em que o mundo estava fechado em casulos, esperando uma transformação que ninguém entendia completamente. Os pais, envolvidos pela rigidez das suas próprias certezas, acreditavam que o amor deveria seguir uma linha reta, sem desvios, como o voo reto de uma ave. Mas, como as borboletas, as coisas eram muito mais complicadas, muito mais bonitas.

    Ao longo dos anos, no entanto, algo começou a mudar. Não foi uma mudança abrupta, nem um evento que pudesse ser registrado como uma grande revolução, mas sim uma transformação lenta, quase invisível, como a pupação de uma borboleta. A vida continuou, o tempo passou e, ao mesmo tempo em que as borboletas evoluíam no ciclo da natureza, as pessoas também evoluíam, mesmo sem perceber.

    As primeiras evidências dessa transformação vinham nas palavras tímidas de filhos que, até então, haviam se escondido, como as pequenas lagartas, e que agora se mostravam com as asas abertas. “Eu sou quem sou”, diziam, com os olhos bravos e a alma esperançosamente corajosa. 

    Mas, e os pais? O que fazer com aquelas asas coloridas que apareciam diante de seus olhos? Inicialmente, muitos reagiram com desconfiança, como se o voo daquela borboleta fosse algo que ameaçasse a paz do jardim. Havia quem ainda não soubesse como lidar com as cores vibrantes, com a liberdade que se manifestava na expressão do filho.

    No entanto, o que o tempo fez com muitos desses pais foi algo belo, talvez até mais bonito que a própria transformação das borboletas. Eles também passaram por suas metamorfoses. Não de maneira imediata, mas com a persistência do amor, com a insistência da vida que não permite que fiquemos presos em nossos casulos. O que antes parecia ser um erro, um desvio do curso natural das coisas, agora começava a se tornar parte da beleza da vida. Aos poucos, o amor deles se expandia, como asas batendo contra o vento.

    Eles passaram a perceber que, ao contrário do que pensavam, o amor não precisa seguir uma linha reta. O amor pode ser tortuoso, surpreendente, e é capaz de mudar o mundo de formas que antes pareciam impossíveis. E, assim como as borboletas, que ganham um novo olhar quando começam a voar, os pais também começaram a entender que a beleza da vida está em sua diversidade, na coragem de sermos nós mesmos, sem medo do que a transformação pode trazer.

    Hoje, os filhos que antes temiam o julgamento, encontram pais que celebram suas cores, suas formas, e suas escolhas. As borboletas, com suas asas frágeis, mas poderosas, ensinaram que a evolução, tanto no mundo natural quanto no mundo humano, é possível e, muitas vezes, bela.

    E, talvez, seja esse o maior presente da metamorfose: saber que, mesmo depois de tantas camadas, o amor sempre pode florescer.

  • A Última Linha

    A Última Linha

    Clara e Lívia nunca souberam que as palavras que traziam à tona a verdade e o caos nas suas reportagens também seriam as que cavariam um abismo entre elas, uma linha tênue que separa o amor da dor.

    Ambas jornalistas, ambas mulheres, ambas devotas da busca pela verdade, mas com uma diferença irreparável: Clara, a que desvelava os fatos com precisão clínica, implacável, enquanto Lívia caçava as tragédias, as tragédias invisíveis, que se escondem no âmago da dor humana, com uma sensibilidade que se transbordava em poesia. Elas se conheciam como se conhecem os ecos de um lugar que nunca se esquece. Durante anos, as trocas de olhares disfarçados e os silêncios compartilhados foram a base de uma amizade que nunca ousaram questionar. Mas, aos poucos, o que antes era parceria começou a ser algo mais — algo perigoso, inquietante, insustentável.

    O escritório delas era pequeno, abafado, uma cápsula onde o peso das matérias urgentes se empilhava ao lado de prazos que nunca se cumpriam. Ali, no caos do jornalismo, havia uma quietude entre elas. Nos intervalos, quando se cruzavam nas pequenas pausas para um café ou uma refeição rápida, as conversas mudaram. De questões políticas e tópicos profissionais, passaram a falar de si mesmas, de suas fragilidades, dos pedaços de si que preferiam esconder. As risadas contidas de Lívia começaram a carregar um timbre estranho, um calor, algo que Clara não soubera identificar até então. E Lívia, que sempre via o sofrimento alheio através das palavras, começou a escrever cartas para Clara, cartas que nunca seriam enviadas, mas que falavam mais de sua alma do que qualquer matéria que já escrevera.

    Ambas estavam marcadas por histórias difíceis, amores perdidos, feridas antigas que ainda sangravam. Mas o jornalismo, que as unia, acabou por ser o espaço que as afastava. Clara sentia cada vez mais que a dor de amar Lívia pesava mais que a leveza de sua presença. E Lívia, mergulhada em suas próprias sombras, parecia temer o encontro com sua verdade, como se o que estava acontecendo entre elas fosse uma tempestade que elas não poderiam controlar.

    O fim se desenhou em uma tarde que parecia igual a tantas outras, mas que, com o peso do destino, tornou-se irrevogável. Elas estavam juntas, no escritório, redigindo uma matéria sobre mulheres desaparecidas. O texto estava imerso em uma dor pungente, como se a própria tragédia dos desaparecimentos estivesse se infiltrando em suas almas. Foi ali, naquele momento de melancolia, que Clara olhou para Lívia não como colega, mas como mulher. O que antes era uma amizade profunda, agora se tornava um abismo de desejo não dito, de um amor que não podia ser expresso. Clara se aproximou, hesitante, como se fosse uma prece que não soubesse se poderia ser dita. Lívia, com o olhar distante, os lábios entreabertos, parecia não perceber que sua própria resistência era a dor de um amor não correspondido.

    “Eu… eu não posso,” disse Lívia, como se palavras fossem facas afiadas, cortando o espaço entre elas. “Não podemos nos perder no que não podemos controlar.”

    Aquelas palavras, baixas e pesadas, se cravaram na alma de Clara como um golpe, mas ela já sabia. Sabia que não havia mais espaço entre elas. Sabia que o que sentiam não tinha mais lugar no mundo que habitavam, que aquele amor não poderia ser contado nas páginas de um jornal, não poderia ser feito de palavras que se cruzam e se diluem em uma reportagem qualquer.

    Lívia levantou-se, pegou sua bolsa, e se afastou. Clara permaneceu ali, com os dedos ainda tocando a borda da mesa, como se tentasse segurar algo que se desintegrava entre suas mãos. Não houve mais palavras. Não houve mais gestos. O que restou foi o silêncio de uma história não escrita, de um amor que não teve chance de existir, de uma última linha que jamais seria traçada.

    Dias depois, Clara entregou sua matéria. As palavras estavam ali, mas faltava algo. Havia um buraco vazio entre as frases, como se a dor de um amor não correspondido tivesse se infiltrado em cada letra. Ela sabia, com uma certeza amarga, que aquelas palavras não podiam descrever o que havia se perdido entre ela e Lívia. 

    A tragédia não estava no amor que nunca se concretizou, mas no silêncio que tomou o lugar das palavras. Na última linha, que nunca seria escrita, que talvez fosse melhor assim. Porque, no fim, algumas histórias, as mais trágicas, são aquelas que não podem ser contadas.