Eu não vou caber na caixa de vocês


Acho quase inacreditável que me vestir como eu mesma seja, dentro dessa casa, interpretado como se eu tivesse colocado uma abóbora na cabeça só para chamar atenção.

Como se qualquer coisa em mim que fugisse do esperado precisasse necessariamente ser uma provocação.

Como se eu não pudesse simplesmente gostar de uma roupa.

De uma cor.

De uma combinação.

De uma estética.

De mim.

É estranho perceber que, para vocês, existir de um jeito diferente parece sempre significar querer ser o centro do mundo.

Não.

Eu não me visto para chamar atenção.

Eu me visto porque gosto.

Porque é assim que eu me reconheço no espelho.

Porque, depois de tantos anos tentando descobrir quem sou, talvez uma das poucas coisas que eu tenha aprendido seja a não me abandonar para parecer mais confortável aos olhos dos outros.

E não é culpa minha se vocês foram ensinados a enxergar o mundo dentro de uma moldura tão estreita.

Não é culpa minha se aquilo que foge do padrão parece estranho para vocês.

Não é culpa minha se vocês aprenderam a confundir normalidade com aquilo que simplesmente é comum.

Eu não tenho obrigação de ser comum para tornar a existência de vocês mais confortável.

Mas talvez o pior tenha sido ouvir que eu deveria trocar de roupa no almoço.

Não porque a roupa estivesse inadequada.

Não porque houvesse alguma regra.

Não porque eu tivesse feito alguma coisa errada.

Mas porque vocês queriam que eu parecesse “menos estranha”.

Menos estranha.

É uma frase pequena.

Mas existe uma violência silenciosa em pedir para alguém ser menos de si.

Porque o que vocês estavam pedindo não era apenas uma troca de roupa.

Era uma redução.

Uma edição.

Um apagamento.

Era como se dissessem:

“Você pode ser você, mas não tanto.”

“Pode existir, mas tente não chamar atenção para aquilo que faz você ser diferente.”

“Pode ser autêntica, desde que a sua autenticidade não nos incomode”

E eu não quero mais viver assim.

Não quero passar a vida inteira me observando pelos olhos de vocês para descobrir o quanto de mim é permitido aparecer.

Não quero entrar em um cômodo pensando em quais partes da minha personalidade preciso esconder.

Não quero escolher uma roupa perguntando se ela será suficientemente normal para não gerar comentários.

Não quero aprender a desaparecer aos poucos só para que ninguém precise lidar com a minha diferença.

Porque eu já passei tempo demais tentando diminuir aquilo que sou.

E não vou fazer isso de novo.

Talvez vocês chamem de atenção aquilo que, para mim, é simplesmente identidade.

Talvez chamem de exagero aquilo que, para mim, é liberdade.

Talvez chamem de estranho aquilo que eu finalmente aprendi a chamar de meu.

E tudo bem.

Vocês não precisam entender cada parte de mim.

Mas precisam entender que não têm o direito de exigir que eu deixe de ser quem sou só porque vocês não gostam daquilo que enxergam.

Eu não sou uma peça defeituosa que precisa ser lixada até caber no formato da família.

Não sou uma roupa que precisa ser ajustada para servir melhor à expectativa de vocês.

Não sou uma versão inacabada de alguém que vocês gostariam que eu fosse.

Eu sou eu.

E talvez isso seja justamente o que mais incomoda.

Porque enquanto vocês esperam que eu me encaixe, eu estou aprendendo a ocupar espaço.

Enquanto vocês tentam me ensinar a parecer menos estranha, eu estou aprendendo que ser diferente não é uma doença da qual preciso me curar.

Enquanto vocês esperam que eu abaixe a cabeça, eu estou aprendendo a levantá-la.

E não.

Eu não vou trocar de roupa para parecer mais aceitável.

Não vou me esconder para facilitar o almoço.

Não vou apagar minhas cores para que ninguém precise olhar duas vezes.

Não vou fingir que sou outra pessoa só porque a minha existência não cabe na ideia estreita que vocês fizeram de normalidade.

Eu não quero viver dentro de uma caixa construída pelas expectativas de outras pessoas.

E, se para vocês ser eu mesma parece colocar uma abóbora na cabeça para chamar atenção, então talvez o problema nunca tenha sido a roupa.

Talvez vocês simplesmente não estejam acostumados a me ver sem pedir licença.

Mas eu estou.

E desta vez, eu não vou baixar a guarda.

Não vou pedir desculpas por existir de uma maneira que vocês não escolheriam para mim.

Não vou me tornar menor para caber no espaço que vocês reservaram.

Se a caixa ficou pequena, talvez não seja o meu corpo que precise diminuir.


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