O país que desaprendeu a seguir

Às vezes eu acho
que o Brasil está andando para trás.

Não como quem volta para casa,
mas como quem desenterra os mortos
e insiste em perguntar
se eles realmente morreram.

Há alguma coisa de familiar
nas palavras que voltaram a circular,
nos homens que descobriram
que o ódio também dá voto,
nas vozes que falam de ordem
como se ordem fosse
um nome bonito para o medo.

Eles dizem que é apenas política.

Mas eu conheço o peso
das palavras quando elas deixam a boca
e encontram um corpo.

Já vimos isso antes.

O medo vestido de patriotismo.
A violência chamada de coragem.
A intolerância chamada de opinião.
A crueldade transformada em projeto de país.

E agora tudo parece voltar
com outra fotografia,
outros discursos,
outras telas,
mas a mesma vontade antiga
de decidir quem merece existir.

E eu, mulher,
e eu, queer,
e eu, autista,
aprendi que há passados
que nunca terminam.

Eles continuam vivos
no corpo de quem precisa se explicar,
na mulher que aprende a desconfiar da rua,
no amor que ainda calcula o perigo,
na diferença que ainda precisa pedir licença
para existir.

Talvez por isso eu reconheça tão bem
o gosto do retrocesso.

Porque para quem passou a vida
tentando ser compreendida,
há uma crueldade particular
em perceber que o mundo
está novamente discutindo
se você deveria ter espaço nele.

Eu sei o que é ser chamada de exagerada
por sentir demais,
estranha por existir de outro jeito,
difícil por não caber
naquilo que esperavam de mim.

E talvez seja por isso
que eu tenha tanto medo
quando vejo o país
aprender novamente a odiar
aquilo que não entende.

Tenho medo das urnas,
mas não apenas das urnas.

Tenho medo do que acontece
depois que o voto termina.

Do vizinho que se sente autorizado.
Do homem que entende o discurso
como permissão.
Da violência que começa pequena,
quase educada,
e cresce quando ninguém interrompe.

Tenho medo
daquilo que se torna normal.

Porque o fascismo raramente chega
batendo à porta.

Às vezes ele chega sorrindo,
fazendo piada,
dizendo que é exagero,
que é só uma opinião,
que ninguém precisa ter medo.

E enquanto discutimos
se devemos chamá-lo pelo nome,
ele já aprendeu o nosso.

Há uma tristeza funda
em perceber que ainda precisamos
defender o direito de existir.

Que ainda precisamos explicar
que mulheres não são propriedade,
que pessoas queer não são ameaça,
que pessoas autistas não precisam
ser corrigidas para merecer respeito,
que democracia não é fraqueza,
que diferença não é doença,
que liberdade não pode significar
a liberdade de destruir o outro.

Às vezes olho para o Brasil
e sinto que estamos diante
de uma porta aberta para trás.

Do outro lado,
há tudo aquilo que juramos
que não deixaríamos voltar.

E há quem atravesse
como se estivesse chegando em casa.

Eu não quero voltar.

Não quero um país
onde o amor precise se esconder,
onde uma mulher precise diminuir a própria voz,
onde uma pessoa queer precise calcular
o risco de existir em público,
onde uma pessoa autista seja obrigada
a parecer menos autista
para ser considerada humana o bastante.

Não quero ensinar ninguém
a sobreviver ao próprio país.

Quero poder viver nele.

Só isso.

Viver sem transformar cada esquina
em uma avaliação de risco.
Sem transformar cada eleição
em uma contagem regressiva para o medo.
Sem precisar comemorar
o mínimo como se fosse conquista.

Mas eu tenho medo.

E talvez essa seja
a parte que mais me envergonha admitir.

Tenho medo porque conheço a história.

Porque sei que direitos podem desaparecer
muito mais rápido
do que foram conquistados.

Sei que discursos deixam marcas.
Sei que palavras elegem governos.
Sei que governos escolhem corpos
sobre os quais podem ser mais cruéis.

E sei que o passado
não precisa se repetir exatamente
para continuar sendo passado.

Basta que a gente aceite
algumas das suas ideias.

Basta que o ódio volte a parecer razoável.

Basta que o absurdo
aprenda a ser cotidiano.

Por isso continuo aqui.

Cansada,
assustada,
às vezes profundamente triste.

Mas aqui.

Porque talvez resistir
seja uma forma de memória.

Lembrar o que aconteceu.
Lembrar quem morreu.
Lembrar quem lutou.
Lembrar que nenhuma liberdade
caiu do céu.

E lembrar, sobretudo,
que eu não quero um futuro
que tenha a forma do passado.

Quero um país
onde minha existência não seja resistência.

Onde ser mulher não seja coragem.
Onde ser queer não seja perigo.
Onde ser autista não seja sentença.
Onde a democracia não seja uma coisa
que precisamos salvar
a cada quatro anos.

Quero apenas seguir em frente.

Mas às vezes olho para trás
e vejo o Brasil me chamando pelo nome.

E é difícil não sentir
que estamos todos, pouco a pouco,
aprendendo novamente
a andar para trás.


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