A filha que nunca tem hora marcada

passei a semana inteira cansada.

trabalhei, estudei, engoli o choro quando deu,
fiz tudo o que esperavam de mim
e um pouco mais,
como sempre faço.

tenho vinte e dois anos
e ainda existe uma parte de mim
que só quer ser filha.

não quero dinheiro,
não quero presentes,
não quero que você resolva a minha vida.

eu só queria sair com você.

um passeio besta,
uma tarde qualquer,
um café,
qualquer coisa que me fizesse lembrar
que você também gosta de estar comigo.

hoje eu podia sair mais cedo.
hoje eu tinha tempo.
hoje eu pedi.

e você estava cansada.

engraçado como o cansaço sempre aparece
quando sou eu quem convida,
mas nunca parece tão grande
quando é a minha irmã.

três anos mais nova do que eu
e, às vezes, parece que nascemos
em famílias diferentes.

ela tem você toda semana.
eu tenho as lembranças de quando talvez tivesse.

e o pior é que nem consigo lembrar
da última vez que saímos juntas.

olha que coisa triste:
uma filha tentando encontrar
a última vez em que foi escolhida
pela própria mãe.

eu queria ter raiva de você.
seria mais fácil.

mas continuo esperando.

continuo pensando que, talvez,
na próxima vez,
você aceite.

que talvez um dia
você olhe para mim e pense:
minha filha está cansada,
minha filha está crescendo,
minha filha também precisa de mim.

mas você parece só enxergar
a filha que ainda precisa de colo
quando olha para ela,
e a filha que já deveria saber se virar
quando olha para mim.

como se crescer significasse
deixar de precisar de amor.

como se eu tivesse assinado algum contrato
aos dezoito anos
abrindo mão do direito
de sentir sua falta.

eu sei fazer tanta coisa sozinha.
sei trabalhar cansada,
estudar exausta,
resolver problemas,
engolir decepções,
voltar para casa
e fingir que está tudo bem.

mas não sei como deixar de querer
que você queira estar comigo.

e talvez seja isso que mais doa:
não é o passeio que não aconteceu.

é tudo o que ele significa.

é perceber que, mesmo depois de uma semana
inteira tentando dar conta da minha vida,
eu ainda guardo um espacinho dentro dela
para você.

e você não consegue guardar
uma tarde para mim.

eu queria não me importar.
queria ser adulta o suficiente
para não sentir ciúme da minha irmã,
para não contar quantas vezes vocês saem,
para não comparar convites,
para não transformar cada recusa
em mais uma prova contra mim.

mas como é que eu faço
para não me comparar
se você mesma me ensina,
sem dizer uma palavra,
que existe uma filha
para quem você sempre encontra tempo
e outra para quem sempre existe uma desculpa?

eu não culpo minha irmã
por receber o que eu também queria.

ela não tem culpa
de ser amada na minha frente.

mas eu tenho inveja.
tenho, sim.

inveja da facilidade com que ela chega até você,
da naturalidade com que vocês combinam as coisas,
da certeza que ela deve ter
de que pode te chamar
e você vai querer ir.

eu queria essa certeza.

queria não precisar implorar por migalhas
e depois me sentir culpada
por chamar migalhas de amor.

queria poder dizer
mãe, vamos sair?
sem preparar o coração
para a possibilidade de ouvir não.

e tem uma menina dentro de mim
que ainda acredita
que, se for mais interessante,
mais bonita,
mais inteligente,
mais bem-sucedida,
menos difícil,
menos triste,
menos eu,
talvez você finalmente escolha ficar.

essa menina não entende
que o amor de uma mãe
não deveria ser um prêmio
por bom comportamento.

ela só sabe que tentou.
meu deus, como ela tentou.

e eu tenho medo
de passar a vida inteira tentando
ser suficiente para alguém
que nunca me fez sentir
que eu já era.

mãe,
eu tenho vinte e dois anos.

não sou velha demais
para querer sua companhia.
não sou ingrata por sentir sua falta.
não sou infantil por querer ser lembrada.

eu ainda quero te contar coisas.
ainda quero viver momentos com você.
ainda quero ter fotografias nossas
que não precisem ser procuradas
em algum passado distante.

ainda quero uma mãe
que também sinta vontade de me ver.

e odeio admitir isso,
mas às vezes parece
que a única maneira de não me decepcionar
é parar de te convidar.

parar de esperar.
parar de perguntar.
parar de deixar a porta aberta
para alguém que sempre tem outro lugar
onde prefere estar.

só que eu não queria desistir de você.

eu queria que você me desse
algum motivo para não precisar.

e hoje, enquanto você descansa
da possibilidade de passar uma tarde comigo,
eu tento descansar
da possibilidade de nunca ser
a filha que você escolheria primeiro.

mas não consigo.

porque amanhã eu vou acordar,
vou trabalhar,
vou estudar,
vou fazer tudo o que preciso fazer.

e, em algum lugar entre uma obrigação e outra,
vou continuar sendo aquela menina
que olha para a própria mãe
e se pergunta:

“o que falta em mim
para você também querer ficar?”


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